sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Despedida


Um fim
para este começo
é o que mais quero

agora
na pele submersa
no aquário dissolvido
nas lágrimas esquecidas

um fim
para este começo
não é o que mais quero:

minto nas sombras
sem volteio
caracol na solidão
sem aqueles adereços

se não é o fim
é o começo do fim
tardando o dia

os sonhos, os afagos
e os medos,

volúvel,

sangrando no fio das rocas
sem agonia.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Imersão



Tolhida no amor
a bela dorme
mas, por dentro, os ossos
rangem em labaredas
e os lábios sugam
rios de saliva
do que antes fora
um gosto de amora,
substância
do que já viveu.

     Hoje,
     amor desintegrado,
carne sem abraços
pele sem afetos.

Tolhida no amor
a bela dorme agora,
mas não findou a vida,
ela me diz farpada.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Prosaico


Amei, de verdade,
diz-me a bela
adormecida

Sobre as palavras
ladrilhadas
sem pedrinhas de brilhantes
para vê-la despertar.

Pensava nisso
sentado na amurada
da Penha enquanto
meu sorvete de amendoim
derretia no cascalho.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

A moça do calendário

No dia seguinte Tão Preto entrou na cozinha da mansão do morro da Boa Vista só para fotografar a moça do calendário, que vivia assediando-o do alto da sua torre de marfim com mensagens pelo twitter.
Ao entrar com a máquina pronta para o primeiro disparo do flash, Tão Preto não se arrependeu, pois a moça de olhos azuis, pernas roliças e voz de freira no claustro abandonou o calendário do alto da sua torre e, em pulo certeiro, alcançou o pescoço dele, enlaçando-o tão fortemente que, por pouco, a máquina não se lhe escapara das mãos, espatifando-se no piso da cozinha como uma fruta madura.
Tão Preto, diante de tanta exuberância, sem titubear, segurou, exibindo uma destreza pouco comum para a sua idade, as duas, a máquina e a moça, com mãos firmes, tomando-as contra o seu corpo, enrijecido, para suportar sobretudo o peso da moça.
E, naquele momento, a reação de Tão Preto foi a de encolher-se dentro de si. Depois, no espaço em que mal cabia o perfume da moça, numa entrega incondicional, os corpos se comprimiram e rodopiaram entre o fogão, a geladeira e o secador de roupas. Tão Preto logo percebeu que não havia outra coisa a fazer, era entregar-se ao calor daquele corpo sobre o seu repousando em suas curvas e, em viagens longas sobre aqueles seios, embriagar-se.
     Ali, naquele instante, Tão Preto percebera também que já se alcançara a modernidade e a mágica da escassez do espaço, no que se chama apartamento, ainda que nele houvesse uma varanda, ampla como um salão de festas, da qual se descortinava um horizonte azulado de mar, que flutuava leve, quase imóvel, testemunha distante do alvoroço na cozinha.
Indiferentes, o hálito e o cheiro doce da moça se espalharam no exíguo território impregnando-se nas frutas, verduras e temperos, que repousavam numa tábua sobre a pedra da pia, aguardando as mãos habilidosas que os transformariam num acepipe para o jantar juntamente com o peixe que descongelava na extremidade oposta.
Tão Preto também se preparara tantas vezes para esta festa do paladar ao lado da moça, ficando com água na boca ao dar de cara com a disposição dos alimentos em repouso, mas sua intuição dizia que esta outra festa não aconteceria. Sempre soube que nunca conheceria os pendores culinários da moça, mas os outros, ele não perdia por esperar. E não se arrependeu porque, quando menos esperou, o mel escorreu pelo seu corpo, lambuzando-o de prazer.
Pois agora Tão Preto estava absorto. Perdia-se nas palavras cruzadas e no prato de sopa que o alimentara na véspera, quando se despedira cedo dos familiares e se recolhera ao seu leito, achando que seria impossível encontrar mais luz do que naquela estampa, por isso deveria estar em plena forma e disposto para não perder nenhum ângulo da moça que, além das pernas roliças, dos olhos azuis e da voz de freira no claustro, esbanjava por todos os poros uma beleza que cegava como o mar, igual a este aqui tão próximo da varanda.
Tão Preto sustinha, nos braços, exibindo as suas virtudes, as duas Nikkons. Ainda perdido, enlaçado pelas duas, não sabia em qual tocaria primeiro. Se na máquina, para fechá-la e protegê-la contra o redemoinho, que o apanhara de surpresa, ou, na moça, também Nikkon de nome, aberta às tentações das suas lentes. E havia tanta luz iluminando e cegando ao mesmo tempo aquela atmosfera, que ainda hoje tateia na plenitude dos contrários.
E quanto mais os corpos amalgamados rodopiavam na zoeira da cozinha, mais a luz embriagava, mais a luz cegava, embriagava e cegava de novo, num jogo de sedução, deixando-o, seguidas vezes, atônito ao persegui-la com o olhar. Tão Preto parecia perder a energia ante as forças descomunais que o segurava, enquanto os rodopios cada vez mais rápidos não cessavam, como se um vendaval não parasse de varrer a cozinha desde que Tão Preto ultrapassou a soleira da porta com a máquina na mão.
A luz abria tantas veredas em seu caminho, expandindo-se e retraindo-se no seu íntimo, que desaprendera a conjugar outros verbos, que desaprendera a tocar outros tecidos, que desaprendera os primeiros acordes que dedilhara no violino. Sabia que, em meio dos nós que não se desatavam e da barafunda que se armara na cozinha, o corpo precisava daquele alimento, só não sabia que havia uma pulsão de morte na tela à sua frente.
Como se Tão Preto adivinhasse, de súbito, uma outra ordem se estabelecia naquele retângulo em que eles se encontravam imersos, e uma voz desolada resmungava palavras desconexas até explodir num gesto brusco:
– Tire suas mãos de cima de mim, cara, você não me merece!
– Calma... Moça... Algum problema?
– Acabou... Já disse. Não quero vê-lo mais – dizia enfezada a moça do calendário, deixando-o sem graça com a mudança brusca de humor, afastando-o com as mãos.
– Calma... Calma...
– Não, não... Não quero vê-lo mais – repetia mais alto.
– A vida é tão estranha, não é mesmo? – disse-lhe Tão Preto conciliador, embora não estivesse sendo original.
Enquanto um vento cheio de fantasia soprava do lado de fora, Tão Preto se embalava nas águas do sono e da vigília, nas pedras que farfalhavam sob a correnteza das águas descendo em cascata como os seus sonhos, mas ele também não desgrudava os olhos semicerrados da outra Nikkon.
Nela, sequencialmente, rolavam as fotos com as dobras esquisitas, as histórias estranhas, o momento em que se abaixara e apanhara um véu, saído não se sabe de onde, que voava por entre panelas, pratos e talheres, e as sandálias, que a moça abandonara dos pés quando se engolfara no pescoço dele, que até então permaneceram no chão enquanto rodopiavam na cozinha, e outras lembranças que as fotos não guardavam, mas estavam na memória.
Dizendo-lhe o quanto os adereços lhe caíam bem, Tão Preto tomou um caderno de notas também achado no meio do caos da cozinha e acordou abruptamente, mas já sabendo aquela altura que tudo passa ou que a fila anda como dizem os mais jovens nas redes sociais, ainda bem, dizia resignado, embora tivesse imaginado por algum tempo que as águas nunca se cansariam dele... mas sabia que a vida é uma sucessão de enigmas, como a metamorfose kafkiana que se operara na última imagem na Nikkon em suas mãos, pois, enquanto olhava cuidadosamente a outra Nikkon, percebia no visor um beija-flor selvagem, exibindo-se no calendário – antes pertencera à moça – com um véu no bico, dando-lhe um toque sedutor, muito feminino.
    – Ainda bem... – cataléptico, balbuciava outra vez Tão Preto.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Tecendo

                    Para Lidi

De que serve a ternura
ou a carícia tão doce
do mar em plena lua cheia?

De que serve o vôo fácil,
rasante, nas cataratas do prazer,
se teu sangue não coagula?

De que servem as vogais
infiltradas em teu nome
roendo o fruto, a semente,
se não irrigam tua vida?

De que serve o júbilo
se o mistério não existe
e o absoluto é um pecado
sob músculos e ossos?

De que serve o estigma
se a terra é tua vida
e a razão impele-a à dor
emasculando o grito?

De que serve o rio
náufrago, viúvo da insensatez,
que percorre tuas veias?

De que serve? De que serve?

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Requiem para Dona Zezé


Para Mayrant Gallo

Modestamente, preciso abraçar-lhe e confortar-lhe com palavras impregnadas de sentido ainda que tardiamente. Mas ninguém conforta o outro antes que se faça necessário fazê-lo. E fazê-lo, às vezes, é dar uma sobrevida à dor, que o outro talvez já não tenha ombros para suportá-la depois de tantas palavras impregnadas de sentido que cada um ao seu modo o fez. Mas fico à vontade para fazê-lo também, pois só agora tomei conhecimento do feixe escuro que se abateu sobre você, ainda que intensifique a sua dor.
     Não se perde nada impunemente, Mayrant, mas você, estoicamente, transformou a perda, e o foi, não se pode dizer o contrário, quando o telefone toca e se ouve a voz do outro lado dizer-lhe que o canário chora na varanda, mas, como o canário, você precisa ser forte e, na aparência, o fostes, pois transfigurou a ausência em permanência, através da sua condição mortal de adulto e, sobretudo, na condição de poeta, com um canto triste, mas sem deixar de reconhecer que, quanto maior a dor, é preciso cantar, é preciso cantar para Dona Zezé, sobretudo agora que o tempo não passa para ela e, como o fizestes tão bem, despojando-se da efígie da armadura que a  elegia sublima em teu canto, eu tenho certeza que Dona Zezé descansa em paz, sabendo que o tempo dela de fantasmas já se dissipou, e que estes também descansam à sua sombra. A morte é um pássaro cruel, não há como evitar sua bicada, Mayrant.
     

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Primavera

Ao amanhecer um ramo florido
   e na folha solitária a gota de orvalho.


O almoço reunia a pequena família. O pescado estava tão delicioso que o avô tilintava ruidosamente os talheres no prato quando, de repente, todos levantaram a cabeça se voltando para o neto de quatro anos, que, cheio de graça, tirou este coelho da cartola:
 – Mãe, quando vai ser o concerto da Neojibá com Vovô do Prato?

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Reflexo



Quebrei os espelhos
e, quando a lua surgiu,
havia um rio noturno 

Ainda que eu levitasse
a água molhava
os meus pés 

E os teus joelhos
não se dobraram
à minha pulsão

Então, me deixei
arrastar rio abaixo
como as folhas mortas.

sábado, 12 de novembro de 2011

Manicure


Quando amanheceu ela estava de unhas aparadas, cutículas feitas, enquanto uma traça corria para esconder-se entre as dobras do colchão.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Dilúvio

A chuva não deu trégua durante a madrugada e ainda corria solta pela manhã, alagando as ruas.
A empregada entrou tiritando de frio, e a patroa, alheia ao que acontecia lá fora, perguntou-lhe porque estava atrasada. Sem titubeios, ela respondeu:
– Porque enquanto a senhora se remexia embaixo dos lençóis, eu enfrentava esse dilúvio...

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Tardes com Anões



  Este texto está atualizado. É a versão publicada no Jornal A Tarde, Caderno 2, p. 5, de 5/11/2011.

Imaginem o que é passar uma Tarde com Anões! É rara esta oportunidade, mas aconteceu comigo. Talvez possa acontecer com você, basta que o queira. Os anões estão juntos, porém espalhados pelas livrarias da cidade, pois estes são anões de livraria, bem urbanos, ainda que de algum modo periféricos, sem que isso os ofenda. 
 A ele fui apresentado pelas mãos de Mayrant Gallo, por coincidência um deles. Após a apresentação, eles saltaram para dentro do meu embornal (epa!...) e fizeram festa comigo no caminho de volta que não levava a lugar nenhum, pois o que me interessava a partir daquele momento era o universo que se descortinava à minha frente, sem que eu pudesse controlar a euforia deles e a minha. A deles pelo gozo que manifestaram na leitura da Interpretação dos Sonhos, do anão Eliezer César, por Dênisson Padilha, ao compulsar o livro, deixando inquieto do outro lado Freud, por ter de repensar suas teorias. E a minha, o desejo lacaniano de cortejar a cada um deles na sua inteireza e pequenez. Para os que ainda não compreenderam esta linguagem figurada, estou falando do livro TARDES Com anões – 7 minicontistas, da Editora Vento Leste, organizado por Gal Meirelles.
São anões, é verdade, mas tão somente na extensão de cada narrativa, pois o que há de densidade em cada uma delas é suficiente para torná-los gigantes. Digo-lhes sem pejo (epa!...) porque passei o resto da tarde com os anões sem tirá-los de uma única vez do meu embornal. E por que razão eu deveria ter pressa, se há a sugestão implícita de que deveríamos passar Tardes com anões, fazendo festa com eles?
Sem pressa, segui a cronologia dos textos. Quase me afoguei nas cortantes ironias de Para dizer que te amo (I) e (II), de Carlos Barbosa. Ao fazer este recorte, uma amiga me telefonou e disse de A Análise que "a ironia e o tratamento tragicômico são de absurdo sucesso". Não respondi pelo telefone, mas o faço agora dizendo que se não assinasse embaixo das suas observações não faria este registro aqui. E sem acordar Freud, voltei à Interpretação dos Sonhos, afinal tinha ouvido uma leitura dramática. E fiquei pensando na coleção de vinil que enche o quarto de hóspede lá do meu apartamento ao ler Discos Voadores, ambos de Eliezer César.
Recentemente me deliciei com a prosa poética de Igor Rossoni, em Exercício para Clarineta, agora, ao ler Asseio, fiquei a pensar na empregada que se dependurou também no peitoril do 8º andar, quase no mesmo instante em que o lia para o meu desespero, para lavar os vidros da janela do apartamento e o tempo que levei esperando para dizer-lhe que não precisava mais lavá-los. Ficava com uma tarefa a menos, mas não escondeu o olhar contrafeito. Guardei o olhar e joguei fora a raiva dela, esta não tinha serventia.

Drama mais doces

E bendito seja o toque feminino, Lidiane. Ainda que a toada mantenha a mesma tonalidade, a voz é mais doce. Quase naufrago com o noivo em Naufrágio, e em Menina e o Pássaro, há um acento poético no drama ali exposto, que apanha o leitor segurando a garganta. Mas Lidi sabe manejar os cordéis, pois nada se altera no ritmo das outras narrativas.
Singulares os textos de Mayrant Gallo. Aquela Primavera é um primor de narrativa que me reconduziu à adolescência perdida quando o li pela primeira vez no Verbo 21. E a Borboleta, que pousou na cabeça do marinheiro, me fez lembrar a outra achada no cinema no anedotário popular. Será que alguém se lembra dessa anedota ou já estou ficando num passado perdido?
Também Rafael Rodrigues, em De uma vez, me trouxe a doce recordação da barba cultivada por alguns pares de anos. No dia em que a tirei, minha filha olhou bem dentro dos meus olhos e disse: “você não é mais meu pai”. Também Os versos que dei sorrindo são evocativos de outras memórias.
Fiquei inquieto com A fome de um homem e O início, de Thiago Lins. E, por enquanto, “Não volto a escutar mais ninguém” como ele escreve em Vilela e O buraco. Mastigo cada uma das narrativas de TARDES com anões, como recomendava Antonio Houaiss, sem pressa de engolir.
Só um pequeno senão no arremate não me satisfez. É que  “Nunca esteve ausente ao prelo” a Branca de Neve, como ali consignado nas páginas finais, pois não só esteve presente como brindou os leitores com uma apresentação impecável, com todas as letras, não é mesmo Gal?


    

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Clivagem

As mãos vazias
deslizando no ar

Misturadas ao silêncio
dos tumultos flagrantes

E na inércia das longas viagens
sem as malas, sem agasalho,
nos óleos da dúvida,
posso entendê-las melhor

Como posso entender melhor
este gato em escorpião
numa primavera abafada

na maturidade incendiada
no qual me transfiguro

E estas mãos vazias
deslizando no ar

E este tropel absoluto de silêncio
jorrando murmúrios das raízes
do meu sangue opaco

E ainda bem que as palavras
Não se negam

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Nina

Agora
as lacerações
visíveis
gotejam

e os atenuantes
dos corpos
embebidos
no sangue
do inviolável prazer,
único,
repousam

e as tuas mãos,
Nina, 
penteiam
meus cabelos

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Existencialismo

                           Ouvindo Philip Glass & Tim Fain,
                               In Concert, TCA, 17.set.2011

Pensar Sartre roendo as unhas
é um inimigo rumor, quase um complot
É que o se diz no seu château.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Casual

                               Para Marie Josephine,

Boa-noite, amor!

Por enquanto,
não deixemos o canto.

Entoá-lo
na hora certa do pranto
é da fuga triste
o encanto...

Reinventemos
a todo instante
o riso
ainda que tudo
nos pareça branco.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Singular

A memória é uma luz mortiça,
uma borra de café no fundo da xícara

Uma figura de pensamento,
carregada pelo vento

Um sonho, uma aurora,
o tempo se volatizando

a derradeira sombra
da nudez perdida.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Sertanejo, anti-herói e herói



Ainda bem que não sou um intelectual ou crítico literário. Logo, sem nenhuma ciência, posso apresentar o texto desse livro, que traz a assinatura de Democides Francisco da Cruz.

Desde o começo, vamos simplificá-lo, casando o meu comentário com o espírito do livro, fazendo como ele mesmo o fez em toda a narrativa, pois, sem cerimônia, apresentou-se como Cido, apelido adquirido na infância, fazendo, em seguida, o mesmo em relação ao Calu, o amigo, também pelo apelido, da mesma época, e companheiro de viagem. São os protagonistas dessa história.

Cido é um senhor de mais de 80 anos que resolveu em depoimento comovente contar a história de um anti-herói criado numa fazenda, no interior de Jacobina. Um anti-herói que fez das tripas coração para converter-se num herói anônimo pelas ruas da cidade do Salvador. Salvou vidas, apagou incêndios, buscou sobreviventes em cada desastre natural ocorrido na cidade ou em desastres em que o homem era o agente enquanto esteve servindo ao Corpo de Bombeiros. Deixou a corporação após completar o tempo de serviço, passando para a reserva remunerada. Mas, antes de chegar a esta vitória, conheceu uma vida difícil, de amarguras, dissabores, privações e decepções. Esta parte da sua vida é que vamos conhecê-la mais de perto ao ler esta narrativa.

Este não é um livro para quem busca a fruição estética, com imagens ricas criando uma atmosfera que seduza o leitor através de uma escolha criteriosa de cada palavra, mas nem por isso deve deixar de ser lido para que se conheça, através da palavra escrita, a história de mais um herói anônimo. Pois bem, aqui, nas páginas desse livro, não há fruição estética porque Cido confessa, sem meias palavras, no próprio texto, que não alisou o banco da ciência, e quem o viu lendo como eu o vi, pode afirmar, sem magoá-lo, que narrar sua história de vida é um ato de coragem e exemplo.

Há muitos Cidos por este país afora e muitas histórias semelhantes e, quem sabe, mais dramáticas, mas foi um ato corajoso quebrar o silêncio e dar letra de forma à sua história.

Ainda que a voz ecoante na narrativa pareça canhestra, é a voz dele a levantar-se, isto é, a voz que lhe é possível, mas não choca, não agride, por isso, eu a respeitei, deixando-a na sua pureza, na sua simplicidade. Deixei-o contar do seu jeito, numa linguagem simples, despojada, a história de dois sertanejos, Cido e Calu, uma dupla sertaneja que não sabia cantar, mas fez história de Jacobina a Salvador.

O resto é compulsar o livro conhecer um pouco mais da realidade brasileira, sem tirar nem pôr, de um jeito bem brasileiro, que é a ousadia, o destemor ao enfrentar a vida.



quinta-feira, 28 de julho de 2011

Sobre o livro Jornalismo, Fonte e Opinião, de Sérgio Mattos

Caro leitor, supõe-se um consenso na massa crítica da sociedade que uma entrevista não é um bem durável, que se esgota praticamente no momento em que ela é realizada.
Levando-se em conta a dinâmica que rege os fatos no dia-a-dia, a evolução do conhecimento que transforma o mundo num piscar de olhos, a transformação da vida por obra do dinamismo e da evolução que se vê em todos os quadrantes, tal assertiva pode ser verdadeira e, na maioria dos casos em que o objeto é uma entrevista, pode-se afirmar que se esgota com a mesma rapidez que é produzida.
Sem dúvida, a partir do momento em que um indivíduo, com uma contribuição significativa no meio social em que vive, cumpre o papel de deixar um legado através desse canal de comunicação, que se chama entrevista, sem importar o meio utilizado para que se torne um objeto palpável, sobre o conhecimento que ele detém na área de sua formação, ou sobre qualquer outra temática, cuja contribuição o depoente tenha algo relevante para registro à disposição de todos, o que se conhece como dinâmica da sociedade pode transformar este fato social num extrato datado quase no mesmo instante em que se processa o ato da entrevista.

Pode parecer exagero tal afirmativa, contudo, é tão acelerada a transformação da sociedade hoje que, se guardarmos alguma proporção para o que ora se afirma, é uma verdade aparentemente sem contraditório. Das entrevistas, de fato, a impressão que nos fica é que elas envelhecem durante o ato da sua realização.

Dizemos aparentemente sem contraditório porque nos permitimos trazer ao lume uma coletânea de entrevistas concedidas ao longo dos 40 anos de atuação nos meios de comunicação no Brasil do Professor Doutor Sérgio Mattos em que são desmentidas tais teorias, pois, enfeixadas neste livro, apesar da diversidade, resguardam unidade, se considerarmos as diferentes épocas em que foram concedidas.

Saiba, caro leitor, que, nas entrevistas, se tomadas individualmente e, no livro, por extensão, você não se sentirá órfão, pois descobrirá que as discussões sobre os meios de comunicação, as histórias que se imbricam nos relatos e depoimentos, constituem um tecido que se esgarça tão somente para que você conheça com profundidade um pouco mais da história dos meios de comunicação na Bahia e no Brasil, nisso reside, entre outras razões, sua atualidade e permanência.

Repórter Especial e Chefe de Reportagem do jornal Tribuna da Bahia, na prática sua primeira escola, Editor de Suplementos do jornal A Tarde e da revista Néon, além de professor da Universidade Federal da Bahia, de instituições privadas de ensino superior e da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, e outras atividades que exerceu sem afastar-se um milímetro desse universo da comunicação, Sérgio Mattos revela em Jornalismo, Fonte e opinião uma experiência inigualável. O livro é um repositório dessa experiência e as lições nele contidas não devem se perder.

Uma boa leitura!