sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Sertanejo, anti-herói e herói



Ainda bem que não sou um intelectual ou crítico literário. Logo, sem nenhuma ciência, posso apresentar o texto desse livro, que traz a assinatura de Democides Francisco da Cruz.

Desde o começo, vamos simplificá-lo, casando o meu comentário com o espírito do livro, fazendo como ele mesmo o fez em toda a narrativa, pois, sem cerimônia, apresentou-se como Cido, apelido adquirido na infância, fazendo, em seguida, o mesmo em relação ao Calu, o amigo, também pelo apelido, da mesma época, e companheiro de viagem. São os protagonistas dessa história.

Cido é um senhor de mais de 80 anos que resolveu em depoimento comovente contar a história de um anti-herói criado numa fazenda, no interior de Jacobina. Um anti-herói que fez das tripas coração para converter-se num herói anônimo pelas ruas da cidade do Salvador. Salvou vidas, apagou incêndios, buscou sobreviventes em cada desastre natural ocorrido na cidade ou em desastres em que o homem era o agente enquanto esteve servindo ao Corpo de Bombeiros. Deixou a corporação após completar o tempo de serviço, passando para a reserva remunerada. Mas, antes de chegar a esta vitória, conheceu uma vida difícil, de amarguras, dissabores, privações e decepções. Esta parte da sua vida é que vamos conhecê-la mais de perto ao ler esta narrativa.

Este não é um livro para quem busca a fruição estética, com imagens ricas criando uma atmosfera que seduza o leitor através de uma escolha criteriosa de cada palavra, mas nem por isso deve deixar de ser lido para que se conheça, através da palavra escrita, a história de mais um herói anônimo. Pois bem, aqui, nas páginas desse livro, não há fruição estética porque Cido confessa, sem meias palavras, no próprio texto, que não alisou o banco da ciência, e quem o viu lendo como eu o vi, pode afirmar, sem magoá-lo, que narrar sua história de vida é um ato de coragem e exemplo.

Há muitos Cidos por este país afora e muitas histórias semelhantes e, quem sabe, mais dramáticas, mas foi um ato corajoso quebrar o silêncio e dar letra de forma à sua história.

Ainda que a voz ecoante na narrativa pareça canhestra, é a voz dele a levantar-se, isto é, a voz que lhe é possível, mas não choca, não agride, por isso, eu a respeitei, deixando-a na sua pureza, na sua simplicidade. Deixei-o contar do seu jeito, numa linguagem simples, despojada, a história de dois sertanejos, Cido e Calu, uma dupla sertaneja que não sabia cantar, mas fez história de Jacobina a Salvador.

O resto é compulsar o livro conhecer um pouco mais da realidade brasileira, sem tirar nem pôr, de um jeito bem brasileiro, que é a ousadia, o destemor ao enfrentar a vida.