quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Tardes com Anões



  Este texto está atualizado. É a versão publicada no Jornal A Tarde, Caderno 2, p. 5, de 5/11/2011.

Imaginem o que é passar uma Tarde com Anões! É rara esta oportunidade, mas aconteceu comigo. Talvez possa acontecer com você, basta que o queira. Os anões estão juntos, porém espalhados pelas livrarias da cidade, pois estes são anões de livraria, bem urbanos, ainda que de algum modo periféricos, sem que isso os ofenda. 
 A ele fui apresentado pelas mãos de Mayrant Gallo, por coincidência um deles. Após a apresentação, eles saltaram para dentro do meu embornal (epa!...) e fizeram festa comigo no caminho de volta que não levava a lugar nenhum, pois o que me interessava a partir daquele momento era o universo que se descortinava à minha frente, sem que eu pudesse controlar a euforia deles e a minha. A deles pelo gozo que manifestaram na leitura da Interpretação dos Sonhos, do anão Eliezer César, por Dênisson Padilha, ao compulsar o livro, deixando inquieto do outro lado Freud, por ter de repensar suas teorias. E a minha, o desejo lacaniano de cortejar a cada um deles na sua inteireza e pequenez. Para os que ainda não compreenderam esta linguagem figurada, estou falando do livro TARDES Com anões – 7 minicontistas, da Editora Vento Leste, organizado por Gal Meirelles.
São anões, é verdade, mas tão somente na extensão de cada narrativa, pois o que há de densidade em cada uma delas é suficiente para torná-los gigantes. Digo-lhes sem pejo (epa!...) porque passei o resto da tarde com os anões sem tirá-los de uma única vez do meu embornal. E por que razão eu deveria ter pressa, se há a sugestão implícita de que deveríamos passar Tardes com anões, fazendo festa com eles?
Sem pressa, segui a cronologia dos textos. Quase me afoguei nas cortantes ironias de Para dizer que te amo (I) e (II), de Carlos Barbosa. Ao fazer este recorte, uma amiga me telefonou e disse de A Análise que "a ironia e o tratamento tragicômico são de absurdo sucesso". Não respondi pelo telefone, mas o faço agora dizendo que se não assinasse embaixo das suas observações não faria este registro aqui. E sem acordar Freud, voltei à Interpretação dos Sonhos, afinal tinha ouvido uma leitura dramática. E fiquei pensando na coleção de vinil que enche o quarto de hóspede lá do meu apartamento ao ler Discos Voadores, ambos de Eliezer César.
Recentemente me deliciei com a prosa poética de Igor Rossoni, em Exercício para Clarineta, agora, ao ler Asseio, fiquei a pensar na empregada que se dependurou também no peitoril do 8º andar, quase no mesmo instante em que o lia para o meu desespero, para lavar os vidros da janela do apartamento e o tempo que levei esperando para dizer-lhe que não precisava mais lavá-los. Ficava com uma tarefa a menos, mas não escondeu o olhar contrafeito. Guardei o olhar e joguei fora a raiva dela, esta não tinha serventia.

Drama mais doces

E bendito seja o toque feminino, Lidiane. Ainda que a toada mantenha a mesma tonalidade, a voz é mais doce. Quase naufrago com o noivo em Naufrágio, e em Menina e o Pássaro, há um acento poético no drama ali exposto, que apanha o leitor segurando a garganta. Mas Lidi sabe manejar os cordéis, pois nada se altera no ritmo das outras narrativas.
Singulares os textos de Mayrant Gallo. Aquela Primavera é um primor de narrativa que me reconduziu à adolescência perdida quando o li pela primeira vez no Verbo 21. E a Borboleta, que pousou na cabeça do marinheiro, me fez lembrar a outra achada no cinema no anedotário popular. Será que alguém se lembra dessa anedota ou já estou ficando num passado perdido?
Também Rafael Rodrigues, em De uma vez, me trouxe a doce recordação da barba cultivada por alguns pares de anos. No dia em que a tirei, minha filha olhou bem dentro dos meus olhos e disse: “você não é mais meu pai”. Também Os versos que dei sorrindo são evocativos de outras memórias.
Fiquei inquieto com A fome de um homem e O início, de Thiago Lins. E, por enquanto, “Não volto a escutar mais ninguém” como ele escreve em Vilela e O buraco. Mastigo cada uma das narrativas de TARDES com anões, como recomendava Antonio Houaiss, sem pressa de engolir.
Só um pequeno senão no arremate não me satisfez. É que  “Nunca esteve ausente ao prelo” a Branca de Neve, como ali consignado nas páginas finais, pois não só esteve presente como brindou os leitores com uma apresentação impecável, com todas as letras, não é mesmo Gal?


    

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Clivagem

As mãos vazias
deslizando no ar

Misturadas ao silêncio
dos tumultos flagrantes

E na inércia das longas viagens
sem as malas, sem agasalho,
nos óleos da dúvida,
posso entendê-las melhor

Como posso entender melhor
este gato em escorpião
numa primavera abafada

na maturidade incendiada
no qual me transfiguro

E estas mãos vazias
deslizando no ar

E este tropel absoluto de silêncio
jorrando murmúrios das raízes
do meu sangue opaco

E ainda bem que as palavras
Não se negam

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Nina

Agora
as lacerações
visíveis
gotejam

e os atenuantes
dos corpos
embebidos
no sangue
do inviolável prazer,
único,
repousam

e as tuas mãos,
Nina, 
penteiam
meus cabelos