segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Requiem para Dona Zezé


Para Mayrant Gallo

Modestamente, preciso abraçar-lhe e confortar-lhe com palavras impregnadas de sentido ainda que tardiamente. Mas ninguém conforta o outro antes que se faça necessário fazê-lo. E fazê-lo, às vezes, é dar uma sobrevida à dor, que o outro talvez já não tenha ombros para suportá-la depois de tantas palavras impregnadas de sentido que cada um ao seu modo o fez. Mas fico à vontade para fazê-lo também, pois só agora tomei conhecimento do feixe escuro que se abateu sobre você, ainda que intensifique a sua dor.
     Não se perde nada impunemente, Mayrant, mas você, estoicamente, transformou a perda, e o foi, não se pode dizer o contrário, quando o telefone toca e se ouve a voz do outro lado dizer-lhe que o canário chora na varanda, mas, como o canário, você precisa ser forte e, na aparência, o fostes, pois transfigurou a ausência em permanência, através da sua condição mortal de adulto e, sobretudo, na condição de poeta, com um canto triste, mas sem deixar de reconhecer que, quanto maior a dor, é preciso cantar, é preciso cantar para Dona Zezé, sobretudo agora que o tempo não passa para ela e, como o fizestes tão bem, despojando-se da efígie da armadura que a  elegia sublima em teu canto, eu tenho certeza que Dona Zezé descansa em paz, sabendo que o tempo dela de fantasmas já se dissipou, e que estes também descansam à sua sombra. A morte é um pássaro cruel, não há como evitar sua bicada, Mayrant.
     

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Primavera

Ao amanhecer um ramo florido
   e na folha solitária a gota de orvalho.


O almoço reunia a pequena família. O pescado estava tão delicioso que o avô tilintava ruidosamente os talheres no prato quando, de repente, todos levantaram a cabeça se voltando para o neto de quatro anos, que, cheio de graça, tirou este coelho da cartola:
 – Mãe, quando vai ser o concerto da Neojibá com Vovô do Prato?

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Reflexo



Quebrei os espelhos
e, quando a lua surgiu,
havia um rio noturno 

Ainda que eu levitasse
a água molhava
os meus pés 

E os teus joelhos
não se dobraram
à minha pulsão

Então, me deixei
arrastar rio abaixo
como as folhas mortas.

sábado, 12 de novembro de 2011

Manicure


Quando amanheceu ela estava de unhas aparadas, cutículas feitas, enquanto uma traça corria para esconder-se entre as dobras do colchão.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Dilúvio

A chuva não deu trégua durante a madrugada e ainda corria solta pela manhã, alagando as ruas.
A empregada entrou tiritando de frio, e a patroa, alheia ao que acontecia lá fora, perguntou-lhe porque estava atrasada. Sem titubeios, ela respondeu:
– Porque enquanto a senhora se remexia embaixo dos lençóis, eu enfrentava esse dilúvio...