segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Requiem para Dona Zezé


Para Mayrant Gallo

Modestamente, preciso abraçar-lhe e confortar-lhe com palavras impregnadas de sentido ainda que tardiamente. Mas ninguém conforta o outro antes que se faça necessário fazê-lo. E fazê-lo, às vezes, é dar uma sobrevida à dor, que o outro talvez já não tenha ombros para suportá-la depois de tantas palavras impregnadas de sentido que cada um ao seu modo o fez. Mas fico à vontade para fazê-lo também, pois só agora tomei conhecimento do feixe escuro que se abateu sobre você, ainda que intensifique a sua dor.
     Não se perde nada impunemente, Mayrant, mas você, estoicamente, transformou a perda, e o foi, não se pode dizer o contrário, quando o telefone toca e se ouve a voz do outro lado dizer-lhe que o canário chora na varanda, mas, como o canário, você precisa ser forte e, na aparência, o fostes, pois transfigurou a ausência em permanência, através da sua condição mortal de adulto e, sobretudo, na condição de poeta, com um canto triste, mas sem deixar de reconhecer que, quanto maior a dor, é preciso cantar, é preciso cantar para Dona Zezé, sobretudo agora que o tempo não passa para ela e, como o fizestes tão bem, despojando-se da efígie da armadura que a  elegia sublima em teu canto, eu tenho certeza que Dona Zezé descansa em paz, sabendo que o tempo dela de fantasmas já se dissipou, e que estes também descansam à sua sombra. A morte é um pássaro cruel, não há como evitar sua bicada, Mayrant.
     

6 comentários:

  1. Bonita homenagem e delicada e precisa definição. Eu tenho meus mortos e, por mais que eles se distanciem, seus voos nunca desaparecem.
    beijosss

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  2. Bela homenagem, José Carlos.
    Abraços.

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  3. Obrigado, Zé Carlos. Muito gentil de sua parte. Minha mãe certamente aprovou e está feliz, esteja onde estiver. Um belo texto, uma bela reflexão. Abraço!

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  4. Lidi e Bípede,

    Mayrant logo aqui abaixo de vocês foi um aluno exemplar, ele anda espalhando que fui seu primeiro editor, isto me enche orgulho, mas hoje é um amigo e, neste momento, não poderia deixar abraçá-lo de modo especial e este foi o caminho que encontrei.
    bjs para as duas

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  5. José Carlos, foi um ótimo caminho.
    Abraços.

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  6. Um ombro é bom.

    Um ombro com palavras amigas ainda melhor.

    A perda é dor inevitável.

    Difícil saber das palavras nestas alturas, por onde andam?

    Tu soubeste descobri-las e assim dar ânimo a quem delas necessita.

    Bem hajas

    Beijo

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