quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O apagamento de Olívia

Asilo na ótica de Van Goh (1853-1890)


   Olívia perde o fio da meada quando o telefone toca, levando-a a fechar-se no quarto por horas seguidas sem que alguém consiga trazê-la de volta à realidade anterior ao telefonema e sem que se saiba o que o interlocutor disse do outro lado da linha.
   O trem descarrilou e não há quem o reconduza aos trilhos para que ela esqueça o passado no presente das paredes que a cercam, ilhando-a nas falas descontínuas desde que tudo aconteceu.
    Se eu pudesse, ah! se eu pudesse! Como o bom ouvinte que estava ali sentado, ao lado dela, no banco do jardim florido daquela casa de repouso... Sei que ele faria qualquer coisa para ajudá-la, percebia pelo seu olhar. Tomou-o, como já o fizera com outros, sem que ele o esperasse e agora quebra todas as amarras para dizer-lhe que a cadeira de mágoas foi para a oficina de quebrados e, quem sabe,  se ela não arejar suas ideias, talvez não volte nunca mais
    Ela não o ouve e diz-lhe que voltou a desenhar meninos jogando bola como os via na praça abandonada. Diz-lhe também que depois caminhava pela enseada a tomar sorvete de mãos dadas com as dores e as alegrias como se lhes fossem íntimas.  E vai-lhe dizendo coisas sem parar.
     Enquanto caminhava, diz-lhe, cheia de mesuras, desenhando flores no ar ou tricotando uma joia para uma festa, coisa que ela ainda não sabe se, um dia, acontecerá, tudo o que o coração manda, sem remorsos. Diz-lhe roçando as pontas dos seus dedos que não sentia o mundo a girar como agora. 
   Naqueles lábios não faltavam palavras inventando labirintos para que ambos não sentissem a passagem do tempo... 
   Inundava-o com histórias, repassando os delírios da infância, recompondo um passado que não se esvaía, ainda que ela desenhasse e apagasse imediatamente enquanto os reinventava para fazer perdurar o tempo. 
   Diz-lhe jocosamente que estavam no jardim da infância e fala da merendeira como se falasse do amor ao morder a maçã que levava para a escola, da fita que amarrava ao cabelo, tudo um aprendizado naquela fase da adolescência, sempre se soube uma cinderela, ainda que a sua mãe não o dissesse.
    Diz-lhe que adora subir a escada, que tudo é uma fluidez se multiplicando, que parece ouvir os seus pensamentos, que não se afaste tanto porque o mundo fica desigual sem a sua presença, diz-lhe que não corra mesmo que as suas miudezas não o agradem e que ele, pois, invente também algumas para aquele momento. 
    Chove encantamento no jeito de explicar as coisas da mãe, no jeito de dizer que queria uma casa só dela, ainda que não tivesse jabuticabeiras, ainda que a chuva inundasse a rua e os seus sonhos... E acrescentava que a chuva limpava a sujeira que a vida trouxesse para dentro de cada um.
  Diz-lhe que não se incomoda de pensar absurdos, incita-lhe o braço todo arrepiado, impele-o roçar a sua pele, aqueles pelos eriçados como ela estivesse  sentindo frio...  Mas o sentia. Era um frio interior, lá dentro de si, que não sabia explicar.
  Depois ela lhe diz que é cedo ao perceber o impulso dele... Diz-lhe novamente que gosta da fluidez dos seus pensamentos... Ainda tinha tanta coisa para dizer-lhe sem dar-se conta do tempo escoando por entre os seus dedos e suas histórias, quando o médico plantonista entra com o telefone nas mãos, atendendo-o, no jardim da Casa aonde Olívia repousa sob cuidados sem calendário, logo em seguida
    É aquele um gesto maquinal do médico, por isso ele não percebe que Olívia emudece de repente, levanta-se e caminha em direção ao quarto aonde se tranca pela última vez.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Diário de Tão Preto III



 Imagem capturada no google

Qualquer hora ou tanta coisa. 
Nunca saberia dizer o que é melhor.
Millordiei legal e gostei de fazê-lo, porém não deixei nenhuma pegada na minha sintaxe depois dos píncaros. 
Quando tudo é pó, o poeta já não precisa de bússola, ainda assim os impressos da retina vão e voltam feito mofo. 
Também ainda não vi casco sem ferrugem.
E não adianta dizer-me que o vento a leva para longe porque no alto-mar o que mais a gente sente são as ondas do íntimo.
Ou o dia-a-dia da roleta russa na proa do navio. 
Ou ainda a calmaria nas entranhas palpitantes. 
O noturno de Chopin, se soprado pelo vento praieiro, é uma poética enigmática, é uma língua suada sem nenhuma semântica. 
E eu nunca me envenenaria numa primavera, emproado num navio, mas me lambuzaria num mar revolto. 
Ou em qualquer outra parte do continente. 
O mundo é uma espuma suja, por isso, pulando as apodrecidas escamas, alo-me como se tivesse pernas de pau,
cruzando a pátria clandestina do meu jeito, sem clave ou pentagrama, ainda que um blues tranquilizasse o meu coração. 
Em cada nó de marinheiro um roxo-violeta desengrinalda as ondas, os sais, os sargaços, dessentindo as nuvens e lapidando a dor em mármore de palha. 
Abaixo a ressaca, a língua do mar, as âncoras, o pélago, os corais, pois salivando estes versos trôpegos me embriago em nave líquida.
Salivando estes versos trôpegos, sem quebrar a louça, insone, eu caminho trôpego por este azul piscina.
E não guardo as cicatrizes deste mar porque ele é meu mediterrâneo, nele as garoupas tão perto de outrora fisgam o meu anzol na linha d’água das minhas tessituras.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Millordiano



A bem da verdade
eu queria muito mais daquele instante,
mas guardo na memória o pouco que ficou:
O sax se envolveu como eu queria,
pois, sem a música, o clima seria instável,
e como o imprevisível já tinha aberto a porta,
logo o desejo tocou um samba-canção,
a caixa-de-fósforo tamborilou
um acompanhamento sutil,
e os latidos dos cães uivando pra lua
eram ouvidos bem longe dali.
O que restou de nós?
Distraído não dei um alô depois
E, compulsivamente, você não me perdoou
dizendo-me que abriu as torneiras da sua fonte...
Agora sei o quanto é duro
ficar sem essa sereia
num mar que não está pra peixe.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Sem batismo

Aquarela, 1914. 
Esta obra, de autoria de August Macke (1887-1914), 
está no Westphalian State Museum of Art and Cultural History.

Todos estavam mortos e nenhuma mancha de sangue. O pintor é que sustinha o pincel ainda molhado na mão direita, enquanto a esquerda, com um lenço, enxugava o suor que escorria pelo rosto, descia pelo pescoço e molhava o colarinho de sua camisa.

A pintura ainda repousava sobre o cavalete aguardando que a tinta secasse completamente e já se ouvia um burburinho no ateliê.

Parecendo alheio a tudo, notava-se um brilho diferente no olhar do artista que, sem despregar os olhos da sua obra, guardava os pincéis na sua maleta, aliás, uma obra que todos ali se curvavam pelo realismo exacerbado e se perguntavam, sem ouvir respostas, de onde vinha tanta inspiração para um autodidata e que já alcançava, era notório, um sucesso em escala nacional, sendo notícia em vários veículos de comunicação.

O ateliê recebia dezenas de visitas por dia para vê-lo manejando as tintas com tanta leveza e, depois, embaralhando-as sobre a tela, dando forma e vida às suas criações como esta que acabava de pintar para a alegria de todos que, ali, o rodeavam naquele momento, e, certamente, depois, na próxima exposição que faria, quando aquela tela despertaria a cobiça dos que gostam de arte.

Todos já o reconheciam como um grande artista. Já não havia preocupação de nenhuma natureza em sua vida por conta do seu sucesso, era o que todos imaginavam.

Por outro lado, ele nunca se preocupou com o fato de estar constantemente cercado de pessoas estranhas, sem saber a origem de cada uma delas, a fazer-lhe perguntas, às vezes sem pé nem cabeça, sobre as suas criações.

Aquela obra, antes de ser concluída, havia provocado dúvidas e ilações em todos os que o acompanharam no processo de criação no ateliê esta manhã. Agora a obra já não lhe pertencia. Ao admirá-la, cada um que achasse o que quisesse, ou o que perdesse, dizia para si mesmo.

Do outro lado da cidade, num bairro de classe média, numa casa confortável, enquanto acabava de colocar seus objetos pessoais numa bolsa de viagem, Maria abriu uma gaveta, apanhou uma luva, calçando-a, e guardou, antes que a polícia civil viesse para a investigação, a arma do crime num fundo falso do armário, que apenas ela conhecia.

Ela não deveria ter escondido a arma do crime, sabia, mas havia o desejo inconsciente de proteger o patrão, embora não tivesse a certeza de que ele tivesse cometido os crimes.

Por impulso, ela estava fazendo o que não deveria ter sido feito, bem o sabia, mas agora já não se importava com isso, embora tivesse muito medo de que lhe imputassem alguma culpa, pois o que ela queria mesmo era ajudar o patrão, por não acreditar que ele fosse o autor dos hediondos crimes praticados contra sua família.

Esperava pela Polícia Civil que tinha sido acionada por ela mesma, descrevendo ao Delegado a cena do crime tal como a tinha encontrado ao abrir a porta e entrar para fazer o seu trabalho na casa. Era uma diarista e trabalhava para o pintor e sua família três vezes por semana, fazia quase vinte anos.

Ela estranhara não tê-lo encontrado em casa, na cadeira de balanço, lendo o seu romance, enquanto esperava pela sua vinda, como ele o fizera religiosamente nos últimos vinte anos. Afinal, desde que chegara à casa da família dele para fazer aquele trabalho, era a primeira vez que não o encontrara ali sentado. O pintor só saía para o seu ateliê depois que ela entrava e começava a fazer as suas tarefas. E isto nunca acontecia antes das nove da manhã. Por precaução, não disse isso, pelo telefone, ao Delegado, quando lhe contou como encontrara a casa.

Quando os investigadores chegaram, Maria os recebeu na sala de visitas e lhes mostrou os corpos dos pais dele mortos, ainda no quarto, e o do irmão, na sala, respondendo em seguida a uma série de perguntas e tirando as dúvidas dos investigadores.

O interrogatório, que se arrastava, estava deixando-a angustiada, pois não queria ser arrolada como uma das testemunhas, muito menos como uma suspeita.  Mas, sem titubear, seguiu em frente, dizendo o que sabia. Os investigadores sabiam que ela não era uma criminosa, mas precisavam do seu testemunho, de ouvi-la sobre cada um deles.

Depois de fotografados os corpos, os investigadores vasculharam a casa toda em busca da arma do crime e não a acharam, embora soubessem que o criminoso ou os criminosos usaram uma arma branca.

Voltaram a fazer perguntas a Maria sobre a arma do crime e ela, dizendo que não mexera em nada e que ligara imediatamente para a delegacia, repetiu o que sabia, omitindo o que fizera com a faca, pois agora era tarde para recuar.

Cheios de dúvidas, mas como, de qualquer modo, já não havia muita coisa a fazer ali, na casa, os investigadores pediram a Maria que os aguardasse, sem tocar em nada para não violar a cena do crime, enquanto eles iriam conversar com o pintor no ateliê. E saíram.

Encontraram-no com os visitantes que permaneciam ali, no ateliê, admirando aquela expressão de arte, que parecia real aos olhos de todos. E como se nada soubesse da manhã sangrenta em sua casa, o pintor brindava alegremente o novo quadro do seu acervo, ainda sem batismo, no cavalete. 

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Quase poesia

Imagem e texto da ilustração de Vânia Jordão


Cansei da alfândega da minha vida,
das entranhas roídas de mim mesmo.
Agora já não me vigio na fronteira
e me despenco num tapete voador

que me conduz a uma estranha lua,
apagando rastros da antiga cartografia.
Livre do tempo, eu já não me pertenço.
E porque âncoras interditam meu caminho,

a minha mão convulsa afaga o breu
que nunca existiria se não fosse
o azul uniforme deste frágil instante.

E se não desmorono ante tal ruína,
é porque este sangue nos poros
do negrume é a coisa que me procura.