quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Caminho sem volta (II)



Aquele oceano de margens invade meus sentidos trazendo uma nostalgia de Pessoa, mas eu não vivo senão para navegar, porque é preciso, ainda que não me passe pela cabeça ressuscitar Pompeu. E por que haveria eu de fazê-lo? Outrora ainda, ou outrora agora, é apenas um impasse existencialista, mas idealista é aquele que vai seguindo todas as pistas, pois, mesmo desconhecendo o discurso fundador, ele singra com desassombro para um distante sol ou uma galáxia longínqua com remos empunhados contra nuvens, pelas sôfregas frestas que guardam entre si, pelos retalhos de luz, pelas gambiarras dos anjos, pela fuligem das sombras, iluminando palavras, versos, sílabas com uma gargalhada sonora.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Caminho sem volta




A chama do sol em diagonal dissipa meu ócio e eu não consigo desvendar a sombra porque não a mereço, no ar limpo desta manhã de fevereiro. Sou apenas um olhar frio para o jornal que traz as notícias do carnaval e da guerra fratricida pelos vãos dos becos. Nunca saberei onde me perdi, mas ainda encontro os restos de poeira, a fotografia da falésia do mar, o sabor do queijo de cabra na boca e aquela relva molhada sob os meus pés. O labirinto, que me fazia subir e descer à toa com o peito aberto, sem prender a respiração, agora agoniza sob uma cascata de luz, enquanto, arfando no orvalho, desperta a minha curiosidade o brilho do olhar da lagarta no tronco da árvore. Entre o tudo e o nada, a palavra. Sempre achei que estava de passagem ao sentir o céu na sua transparência. E, sob a minha pele, uma fonte lateja, o que me leva a escutar um rumor límpido desaparecendo. Como agora, no meu cálice, restam as últimas gotas de vinho, eu percebo que a moça tem razão “a vida é um caminho sem volta”.