sábado, 12 de maio de 2012

Meu filtro

Moça,
é o calar que me ilumina,
faz os meus poros se abrirem

é o meu velcro, a minha morada,
a minha âncora, o meu fluxo

é o ponteiro ausente da minha ampulheta,
o meu quadrante, a minha fronte,
a minha raiz, a minha ânsia, o meu grito

é a minha pele, o meu músculo, a minha medula
o meu dicionário, a minha biblioteca, o meu núcleo

é o meu mistério, o meu absoluto, o meu relativo
a minha seiva, a minha semente

é a plenitude do mar noturno que não me pertence.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Surto na rua do sol

O meu destino é esta rua ensolarada.
À minha direita, respirando o corpo do rio, a rua do sol é uma fagulha à tarde, por isso, meus passos são lentos...
Enquanto eu penso, sei que existo no horizonte porque o sangue lateja nas minhas veias e um suor úmido escorre pela fronte.
Suspiro para ter certeza de que a dor não é a de uma ferida breve ou de um relâmpago que expõe as minhas vísceras no leito do rio. Este parece sem vida, mas porejam vidas nas ruas que o ladeiam nos quatro pontos cardeais cortados pelas pontes maceradas pelos pneus que corroem a madeira que as revestem...
E se alguém me matasse em plena rua do sol, agora, enquanto eu caminho pela calçada, sigo pensando o quanto sou antigo, em meio ao burburinho das explicações da bala perdida... Eu me levantaria pé ante pé e mergulharia no rio para me despojar do sangue sobre as minhas vestes e voltaria triunfante para o meio dos transeuntes e deles ouviria dizer tudo o que fui enquanto estive vivo nesta tarde ensolarada. Antes que a bala trespassasse este tresloucado coração. Um homem só é o que é depois de morto...
Imaginem só a minha estupefação quando alguém diz que fui morto por uma amante que me acompanhou até aquele lugar, saindo de tão longe, para perpetrar aquele crime porque não suportara ser deixada para trás, por ciúme, embora ela já não fosse dona deste corpo, cada vez mais despojado das suas virtudes, de tal modo que nem o cemitério parece aceitá-lo para o repouso eterno, de tão gasto, não apenas com o trabalho mas com as dúvidas também.
Ia ficar vaidoso com esta morte tão bacante, saber-me ainda sedutor com os netos  correndo atrás de mim. A vida é este turbilhão, digo para o sujeito mais próximo, que faz ecoar as minhas virtudes, que não era bem assim, que também conheci aquela figura, um submisso de dedos escuros, de unha encravada, que não lavava os pés, que não esquece as ruas da infância em ruínas numa antiga península, quando ainda não era o míope em que se tornou agora na maturidade.
         Encurralado pelo sol, andarilho, esqueço a bala perdida e me refugio atrás de uma coluna e abro uma cartilha e fico soletrando a sopa de letrinhas que dançam sob o olhar da minha loucura vespertina. A matutina nunca existiria se não fossem os lençóis do meu exílio e os estigmas das minhas origens.