sexta-feira, 29 de junho de 2012

Allegro


Acho que foi a propósito de ternura que outro dia, aqui, eu falei da nossa vaquinha.
Como, você há de me perguntar, é possível ter uma vaquinha em um minúsculo apartamento?
Saiba, então. Em poucas palavras.
Ela veio de V-a-c-a-r-i-a.
Não é minha, é da família. Mas ela tem uma mãe. É bom dizê-lo.
É bom dizê-lo também que é uma vaca estimadíssima. Pessoa, em primeiro grau.
Ah! Não me perguntem o que é isso por que eu não sei explicar. Só a mãe dela o faria bem. Isto, se o fizesse verdadeiramente e, claro, se, por sua vez, você acreditasse na versão que nos ilude.
A propósito, aprendi a pronunciar a palavra V-a-c-a-r-i-a assim, como a bípede falante o faz quando, às vezes, se refere também à sua cidade natal.
Mesmo quando ela escreve V-a-c-a-r-i-a parece que a ouvimos com o seu sotaque.
É assim que ela o diz, repito. 
V-a-c-a-r-i-a!
Pois. A Marie Joséphine, que é nome de batismo da vaquinha, é francesa.
É estranho, pasmem, mas ela veio de Saint Tropez. É, já se vê, uma vaquinha très chic.
Mas nascemos, sem exceção, de uma forma ou de outra, para correr o mundo.
Marie não seria diferente.
E, pelas mãos do destino, ela vai parar em V-a-c-a-r-i-a primeiro e, não sabemos como, depois, nos braços da mãe soteropolitana. Aqui, do outro lado dos trópicos, jungida a todos nós pelo tempo da alegria e da afeição.
E da bagunça também na casa quarto.
Uma adoção pura e simples, feita pela avó. Mas não insistam em saber se ela veio mesmo da França, nunca o saberemos.
Se a avó a trouxe da sofisticada praia francesa, lá onde Brigitte se imortalizou no cinema, para V-a-c-a-r-i-a. Ou se fez a adoção por lá, trazendo-a batizada, nunca saberemos, pois a mãe, embora não queira nos confundir, desdiz tudo a toda hora.
Faz parte do inconsciente em que mergulhamos na hora da criação artística.
Também pode parecer esquisito, mas ela é um presente de formatura.
Uma segunda licenciatura da moça a fez cair em seus braços, assumindo a maternidade.
É da moça ou da menina? Pai nunca sabe quando ainda é menina ou quando já é moça, embora sempre saiba quando a terra tem sede.
Quando ela chegou foi bem recebida em nosso porto e, no palco, que a mãe armou imediatamente para a vaquinha.
Um hausto azulado.
Mas a banqueta é vermelha. Nela, sentada, o dia inteiro exerce o seu reinado.
Está sempre na cadeira do comando. Nasceu para bailar, nasceu para mandar!    
“Pronto falei!”. Não nos cansamos de ouvir o seu bordão preferido, embora às vezes incomode.
Ah! Também é bom saber que a vaquinha já fez três aninhos.
No dia em que ficou mais velha na casa pela última vez, ela tomou o seu primeiro banho.
Bateu uma depressão na mãe quando ela foi para a banheira, pois ela ficou com medo que Marie Joséphine se desfizesse na máquina de banho, que ficava logo na esquina.
Uma máquina moderna, segura, todos sabiam, mas poderia fazê-la despedaçar-se, transformando-a em penugem, fazê-la perder a esfericidade.
Porque ela não é gorda, ela é esférica. Também já nos cansamos de ouvi-la dizer isso. E enfaticamente.
E a mãe passava pela máquina de banho todos os dias para observar se Marie já tinha se banhado e se ainda estava inteirinha, como a deixou.
Até o dia aprazado. Quando ela voltou limpinha, alvíssima e perfumada, com água de cheiro da lavanderia.
De qualquer modo, uma parte da biografia está obscurecida, por isso jamais será escrita para os pósteros da família.
Não sei se fazia isso por lá, pelas bandas de Saint Tropez, mas o que Marie mais gosta é de soltar o verbo.
Aqui se diz que fala pelos cotovelos.
Está sempre observando, como ela própria diz, para depois imiscuir-se sem cerimônia, diga-lhe respeito o assunto, ou não.
Pode dizer-se que, às vezes, ela é uma vaquinha enxerida.
Engraçado na sua biografia é a relação que mantém com a sogrão, a caneca do avô para o café da manhã.
Abro um parêntese. A sogrão nasceu sob o signo da polêmica. Um presente do genro. Este a levou desembrulhada. E como foi difícil explicar, no restaurante, à vista de todos da família, o porquê disso. Foi a maior saía justa! Depois conto o resto. Fecha. 
Desde o início da manhã, há uma briga de foice, são modos de dizer, pois não há brigas, apenas um jogo. Um a dizer uma coisa e o outro a dizer outra.
E se comprazem nesse jogo infantil. Entre outras coisas.
Marie diz que não lava a sogrão e o avô diz que já faz o trabalho sujo, que é arrumar a cozinha. E neste perrengue, tomam o café juntos.
Mas ao fim ao cabo, a sogrão acaba lavada e a cozinha arrumada. Quem gosta é a abuelita que, ao chegar para o seu café, já a encontra transparente, luzindo.
Como ela gosta.
“E todo mundo sabe que o lugar da casa que a abuelita mais gosta é a cozinha. Pronto falei!”

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Adágio

p/ Lelena Terra Camargo

Se ela soubesse!
Mas eu sei. Ela é que não sabe que a minha negrita, escrita fina, dorme. Por livre espontânea vontade. Não pelo meu gosto. Ou seria por mau gosto?
Dorme. Deitada na rede, molemente. Do jeito que dizem inato à nossa herança. Nesse mito que só os que o dizem, acreditam. Também acredito nos mitos, mas este é piada de mau gosto.
Ah! Se ela soubesse!
Mas eu sei. Este adágio diz tudo. Ou quase tudo. Ela me pede para acordá-la. Mas o faz com tanta delicadeza e bonomia. O que fazer?
Não resisto. Com a leveza das outonais primaveras me emociono mais facilmente hoje. Aproveito para dizer-lhe: você me pegou no rastro rasurado do corpo sem pauta.
São as pequenas grandes coisas que fazem o meu coração descompassar. Um filme antigo, um minueto, um malbec, uma bola de gude. Não me incomoda dizê-lo.
Mas a infância não está irremediavelmente perdida por causa disso, pois sempre que deponho as armas, eu vejo o mundo girando como um pião.  O mesmo que ainda jogo para cima e aparo no ar equilibrando-o na palma da mão.
Pois o jeitoso jeito de dizer-me: escreva, é o que me faz confessar sem despudor esta fraqueza.
Faz falta uma postagem no seu blogue! Não o deixe sólito! Como é bom ouvi-lo! Como uma bolsa quente, como uma brisa a refrescar o final da tarde. Faz falta.
Tão simples.
Pode parecer uma pequena vela, apenas um rastro de luz. Mas é um sopro de vida, um desvelo, um grito no escuro. Acorda, José! O grito me desperta!
E uma vez desperto reina uma perfeita calma. Clara. E, então, deixemos a minha negrita dormitar agora.