segunda-feira, 11 de junho de 2012

Adágio

p/ Lelena Terra Camargo

Se ela soubesse!
Mas eu sei. Ela é que não sabe que a minha negrita, escrita fina, dorme. Por livre espontânea vontade. Não pelo meu gosto. Ou seria por mau gosto?
Dorme. Deitada na rede, molemente. Do jeito que dizem inato à nossa herança. Nesse mito que só os que o dizem, acreditam. Também acredito nos mitos, mas este é piada de mau gosto.
Ah! Se ela soubesse!
Mas eu sei. Este adágio diz tudo. Ou quase tudo. Ela me pede para acordá-la. Mas o faz com tanta delicadeza e bonomia. O que fazer?
Não resisto. Com a leveza das outonais primaveras me emociono mais facilmente hoje. Aproveito para dizer-lhe: você me pegou no rastro rasurado do corpo sem pauta.
São as pequenas grandes coisas que fazem o meu coração descompassar. Um filme antigo, um minueto, um malbec, uma bola de gude. Não me incomoda dizê-lo.
Mas a infância não está irremediavelmente perdida por causa disso, pois sempre que deponho as armas, eu vejo o mundo girando como um pião.  O mesmo que ainda jogo para cima e aparo no ar equilibrando-o na palma da mão.
Pois o jeitoso jeito de dizer-me: escreva, é o que me faz confessar sem despudor esta fraqueza.
Faz falta uma postagem no seu blogue! Não o deixe sólito! Como é bom ouvi-lo! Como uma bolsa quente, como uma brisa a refrescar o final da tarde. Faz falta.
Tão simples.
Pode parecer uma pequena vela, apenas um rastro de luz. Mas é um sopro de vida, um desvelo, um grito no escuro. Acorda, José! O grito me desperta!
E uma vez desperto reina uma perfeita calma. Clara. E, então, deixemos a minha negrita dormitar agora.

2 comentários:

  1. José Carlos, ah se ela soubesse, e talvez ela saiba, o quanto a escrita tem seus rompantes e teimosias, ela tentaria acordar as mãos que a libertam ainda com mais zelo, que ela preza os sons de cada palavra, os gestos embutidos nos ritmos, nas frases, nas sentenças. Sentenças sem condenação ou martírios, leves sofrimentos de se ser humano, de ter ido além da infância, de ser um humano tão talentoso e um pouquinho preguiçoso, oh, pecado capital das letras, bolinha de gude perto da inveja ou da ira, então, perdoável desde que ela não precise perguntar todo dia e agora Josê, cadê o seu post!!
    Estou muito contente com seu retorno. Ainda mais escrevendo pra mim. Eu tão cheia de bipedices quanto de ternuras.
    Obrigada :)
    Obrigadíssima.
    Beijoss
    Lelena

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  2. Lelena,
    Obrigado. Também acredito na palavra, pois ela é sábia, sobretudo se vem de alguém como você, sempre muito solidária, sempre amiga.
    Bjss,
    José Carlos

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