quinta-feira, 26 de julho de 2012

No largo da Madragoa


Aquelas palavras nunca se despregaram de mim.

Sob os tamarineiros da minha adolescência,
a mãe de Maria enxovalhou a minha vida.

Maria tinha na pele a brancura do leite.

Perguntei-lhe um dia se ela gostava de mim,
Maria não me respondeu

Mas as palavras da mãe de Maria,
(por que eu não tinha na pele a brancura do leite
como a da sua filha),
calaram tão fundo na minha alma
que pulei no estribo do bonde
em movimento e vaguei pela cidade,
depois me escondi nos mangues das palafitas
por dias a fio.

Maria é uma lembrança azeda
como os frutos do largo da Madragoa.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

As noites de Maria

Como seria?...

No jantar uma sopa de ervilhas. Afinal, ele deixou apenas uma empregada, ninguém sabe por quanto tempo, para servi-la na sua ausência. E não voltou. Já faz tempo que ela não o espera em casa.

Depois da gravidez inesperada, exausta, Maria percebe que, na vida, há sempre uma incógnita indagando sobre as fomes do homem nas noites escuras.

E se as noites, além de escuras, forem atormentadas, podem parecer aos olhos dela neste momento infinitas.

Mergulhada em tal escuridão, Maria percebe que já não é uma pessoa comum, é apenas uma sobrevivente. É uma náufraga à procura de uma boia.

E ela sabe tanto quanto qualquer outro animal na face da terra sobre a sua fome, por isso usa a boia apenas como uma salvaguarda para a sua vida, pois não crê que seja a solução.

Afinal, a solução, ela tem consciência, só virá com o tempo quando os grilos já não forem ouvidos pelas campinas. Maria sabe também que eles continuarão existindo. E, não importa o que aconteça em volta, jamais deixarão de ser o que sempre foram. É o que ela imagina! 

Maria se sentia uma sobrevivente desde o dia que colheu a urina e o resultado anunciava a novidade na sua vida.

Embora os vampiros se tornem cada vez mais comuns na sociedade destrambelhada do nosso tempo, não se vive sem sangue, sobretudo em noites tão escuras.

É nessa escuridão, sem garçom, mas com talheres impecáveis, toalhas limpas e guardanapos alvíssimos, que os ossos do dia são enterrados por todos os sobreviventes.

E, no refúgio de uma febre doentia, Maria mergulha num silêncio cúmplice com a noite, palpita a esmo e se acomoda na raia que lhe coube nesta corrida sem fim.

Agora que está sozinha com o feto jorra mais sangue nas dúvidas que alimentam a sua vida. E ela se pergunta estupidamente:

– Qual seria o tamanho da sua fome?

É esta pergunta que umedece a sua língua, quando fecha os olhos e busca águas infinitas e límpidas e encontra, sem mapa ou sem lanterna, a infância.

Ela pensa que já sabe a resposta. Mas basta que os dias se sucedam no calendário para que ela entenda o mistério de um corpo fecundado a chamar por aquele que se ausenta.

Vencida, ouve por todos os sentidos a voz da sua mãe dizendo que depois de o ‘passo em falso’, que vista a pele de mãe, como ela também já o fez no passado, diz ainda que o passado já não está tão longe, e que saia a galope como um animal ao vento, pois não há um outro caminho a fazer.

Maria abre os braços pedindo forças e afasta a imagem da mãe que, na sua tirania, reluta em afastar-se, fazendo mais um sermão ao tecer um libelo contra o fato consumado.

Maria sabe – mais do que ninguém – que depois do leite derramado há pouco o que fazer na sua vida. E vai levando a esperar a hora, mas se perguntando:

– E agora?...

É contemplar o barco que se afasta do porto, subtraindo-se na costa com aquele que a deixa com as migalhas do festim.  

E por mais que isto lhe pareça um gracejo da vida, depois de ficar ao deus dará, aceita tudo em um silêncio beneditino.

Uma vida impele outra vida, diz-se a todo instante na deambulação interior que faz horas a fio dentro do quarto.

Mas também não se surpreende nem um pouco quando, em seguida, diz a si mesma que não deixaria de amá-lo por isso ou por aquilo do que fez da sua vida.

Depois não se surpreende nem um pouco ao dizer para si mesma que a vida são os retalhos apanhados aqui e ali, que ele já os tinha bastante quando a conheceu, ainda que bastante jovem, achando, por isso, que a vida dele já tinha desabrochado faz tempo...

Como se enganou com as uvas na parreira!...

Agora a ausência é esquecida pelas carícias sem palavras naquele corpo. É só um repouso mudo do lado de dentro porque do lado de fora a vida desvela o barro de outras gerações.

Maria procura manter a calma, mas ainda tem os olhos vermelhos. E com as mãos em concha, protege o ventre.
  
Já não é possível esconder de si mesmo as entranhas com a semente, embora, enquanto a barriga não se avoluma, ela possa escondê-lo dos outros.
Ela sabe que está fecundada, por isso palmilha o corpo, a querer proteger o feto, fitando o medo.

Maria sabe que agora será mais longo o tempo de espera e, talvez, o de sofrimento. E sem deter as mãos no aconchego do ventre, vela côncava, se pergunta, agora que ela sabe que vai nascer o rebento,
“O que será de mim?”.


Maria, que sempre fora uma fogueira, arde. E, na crepitação, ela se pergunta ainda como os amantes sustentam filhos. E o calor se propaga.  

É tanto calor que não suporta os pensamentos dilacerando a carne viva do seu corpo.

E como uma amante, sustenta um filho?

Do alto da escada, ela observa todo o movimento no andar de baixo.

Maria não sabe ainda por que observa o que acontece pelos corredores, mas a intuição manda que ela o faça.

E ela obedece cegamente, talvez inspirada na canção de Rita Lee.

Temerosa por um despedaçamento, ela sente uma grandeza interior ali na ponta do iceberg que ela inventou para si mesma, ora contemplando o céu, ora resgatando horizontes perdidos, estrelas luzidias e o galope do vento rente à janela em que se refugia na hora do tédio.

Agora contrai as mandíbulas, tritura os seus ossos e a dor se encravando no seu corpo sela a unidade da esfomeada.

Mas a lua sempre foi o seu bonde nas madrugadas, sempre foi o parque onde se comprazia comendo doces enquanto roçava a sua tristeza como se fosse um animal doméstico. 

E como ainda chove fortemente no seu telhado, ela parece tranquila na fronteira que a vida lhe oferece neste momento, agasalhada, sentindo o cheiro, por toda a casa, do fruto que amadurece.

Maria deixa, então, escapar um suspiro, um soluço, e diz para si mesma:

“Como seria bom tê-lo sempre ao meu lado como um cão de guarda!”.