sábado, 27 de outubro de 2012

Diário de Tão Preto II













A casa 66

Só no falar
Só no dizer
Nada de mim
Fatias de vida
Por um fio
Um dente de alho
O olhar raivoso
A banana frita
A batata assada
O malte gelado
O cão engatado
A calçada estreita
A macaxeira cozida
O anzol sem a isca
Depois do amor
O adeus
Os olhos vermelhos
O corpo tremendo
Os trapos do corpo
A cor da minha vida
Um anjo sem cor
Pássaro sem medo
Tenaz persistência
Um pequeno porto
A vida sem detalhes
Por anos a fio
A palafita.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Elegia



             Para D. Clélia Vieira, 87 anos,
             que sempre foi o chapéu da família.

          Este chapéu já não cabe na minha cabeça, não choro por ele porque já o sei perdido, mas lhe ofereço a minha saudade.

          Não me olhe de viés, meu encantado chapéu, que ainda quero fazer-lhe um pedido: abre as tuas abas enormes sobre mim e deixe-me cortejá-lo, uma vez mais, como a uma dama, pois sempre fostes um apetecido porto e agora tu deixas a minha cabeça desterrada, umedecida, cão sem dono, pela falta do teu agasalho, da tua proteção.
 
          E quero que saibas ainda o quanto achei bom, meu cordato e velho chapéu, que nenhum vento áspero tenha arrebatado a semântica do teu feltro, nem o folio das tuas angústias ao meditar, lado a lado, no velho largo nosso de cada dia.
 
         Deixe que eu o segure, ainda que não mais o queiras, pelas tuas curvaturas com o carinho de sempre. Assim eu posso lembrar-me dos cristais de neve das tuas abas; dos cristais metafísicos de ânsias que se derretiam quando a lua o beijava no banco da praça.
 


         Meu aromático chapéu, envelhecido como um barril de carvalho, sei que chegou a tua hora, vai tenso e taciturno, porém lúcido, e com visão mais funda, em túnica de festa, vai! E descansa em paz!

    


domingo, 14 de outubro de 2012

Sobre o livro Confissões de um eremita



Sem medo de comprometer-me, pois a apresentação de uma publicação é sempre uma responsabilidade muito grande que nos atribuímos em relação à obra e aos leitores, afinal, criamos uma expectativa no autor em relação a um juízo ou a uma valoração do seu texto, e no leitor, porque se este começa a leitura pela apresentação, ao levar para dentro da obra que está sendo lida este juízo pode deixar-se contaminar por este julgamento, fazendo-o abandonar a leitura ou completá-la mais prazerosamente, a depender do que leia ou como leia a apresentação da referida obra. Por isso, este parecer é sempre uma faca de dois gumes.

Mas este compromisso não me deixa preocupado e, já, já, vão entender o porquê disso.

Ainda que não tenha acabado de ler inteiramente os poemas enfeixados no livro Confissões de um eremita, de Eduardo Boaventura, o que não compromete este juízo, pois é a segunda leitura que conta – o que significa dizer que os li inteiramente –, e justifico a afirmativa de que não acabei de lê-los porque o faço como ensina o poeta Carlos Drummond de Andrade, ruminando cada poema, ruminando cada verso, buscando em cada um deles a carga de sentido que encerra, ou que carrega, para decifrar o mundo através da palavra, mas me antecipo, dizendo-lhes que descobri um poeta, alguém que sabe o que fazer com as palavras e o que dizer-nos trabalhando a substância de cada uma delas para trazer-nos algo novo, para surpreender-nos, às vezes, por exemplo, com uma interpretação pessoal e, ao mesmo tempo, um louvor ao poeta Fernando Pessoa, em Ao Guardador Rebanhos, ao dizer-nos:

Agora.
É pensar com os sentidos (...)

(...)
Ao longe,
Um canto campestre ressoa,
E eu vou sentindo Fernando,
Muito bem menos poeta,
Tão simplesmente Pessoa.

E, às vezes, para discutir o ritmo dissoluto do tempo, para tratar dos sentimentos mais essenciais como o amor, ou ambos, no mesmo poema. É o que nos mostra em Paisagem:

Nada poderei fazer
Para que os anjos não levem
A tua presença encarnada

Somos sobretudo passagem
E a dor de termos memória....
(...)

Vejam que fujo do lugar comum afirmando que descobri um poeta, eu não digo que descobri mais um poeta, afinal, vivemos numa terra pródiga deles, embora o fato de descobri-los seja uma fonte de prazer neste mundo cada dia mais intangível pelas durezas de um individualismo atroz, de um prosaísmo sem fim, que consome nossas energias de forma vã ou mesmo de uma violência avassaladora. Descobri-los, no entanto, é um bálsamo, pois eles são capazes de tornar este mundo quase inóspito mais acessível pelo acontecimento da palavra, pelo acontecimento da memória, sobretudo, neste caso, que se faz pelos dois caminhos.

E eu diria mais. Eu diria que esta profissão de fé na palavra e na memória constitui a epígrafe, síntese acabada, perfeita, do que significa este livro de Eduardo Boaventura e, mais do que isso, a epígrafe é uma criação do poeta, mostrando-se consciente do seu fazer poético: “Metade do que fui, inventei / A outra metade é memória” como a deixar claro de que o seu intento é aprisionar um tempo de invenção enquanto instância de vivência individual, acoplando-se à memória através da história que flui à medida que se acentuam as relações entre o amor, a natureza e a beleza nos poemas, denunciando que, entre um verso e outro, convivem o poeta e o filósofo, pois, ao mesmo tempo em que se aventura pela palavra poética, desce aos porões da filosofia, buscando também a água para a sua sede, como nos versos de Canção do poeta:

Deixai-me em paz, pelas margens
Dos rios que olho passar...
Não me seduzem as viagens,
Meu verbo é ser, não estar.

Filósofo de formação acadêmica, “Meu verbo é ser, não estar”, é o primeiro de muitos índices dessa convivência homogênea entre os dois criadores que alcançam um padrão de naturalidade e equilíbrio em busca de uma determinada conformação no mundo, revelando uma individualidade, mostrando a força do seu sentimento e uma natureza contemplativa, fruto do casamento entre as duas searas: a do poeta e a do filósofo que se complementam, formando um par e encontrando o equilíbrio através das duas vertentes.

É bom que se diga ainda que os poemas, quase sem exceção, são escritos de forma simples, mas trazem consigo o rigor poético, um caráter apolíneo, como mostra, dentre outros, a Brevíssima História Universal, em que o poeta mostra a natureza da sua arte poética na beleza dos versos iniciais deste poema:

O que o tempo promete,
A eternidade esquece...

O que dizer de nós?
(fragmentos do amanhã,
Poeiras da tarde,
Instantes da noite)

– Um breve milagre da vida...

Por fim, ler Eduardo Boaventura é mergulhar na sua dicção absorvendo cada palavra, cada sílaba, buscando-lhe as harmonias; é estar atento à métrica que escorre por alguns poemas, ao aparato formal que dão força à sua concepção poética, à sua linguagem, deixando-nos a certeza de que “Todos os mais belos dias / São de infinita renúncia” para o fazer poético deste novo artista da palavra, que, na verdade, já não é tão novo assim.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Dário de Tão Preto

Sábado, 29, setembro


Agora estou despojado de tudo. Impertinente, só não descartei a alergia e a pose de adulto idiossincrático que carrego comigo há anos como um mal necessário. Ainda que não negue, cresci o bastante, e as roupas já não cabem em mim, mas eu as visto sem nenhum pudor. Só aquele sapato feito a mão é que guardo como um adorno de veraneio. Eu só os calço por descuido para não gastá-lo e, quase sempre, é em dia de festa quando os meus pés festivamente os acolhem com meias de algodão e saio pelas ruas com os olhos nas nuvens e, ao mesmo tempo, nos sapatos como se carregasse nos pés uma joia, embora, os que me olhem, pensem que estou à procura de alguma coisa que perdi pelo caminho. 


Ah! Estas areias! Estas andanças! Esta corda de enforcado! Mas eu não queria este devaneio, esta sombra me perseguindo numa escancarada manhã de sábado, ensolarada, como o diabo prefere. Esta promessa de espuma alvíssima, o mar da enseada, a leve impaciência, a chave perdida, os vampiros sugando sem cerimônia o meu sangue em plena luz do dia, os burocratas conspirando dia e noite, as raspas de manteiga no fundo do pote, o travo nos maxilares, os arrecifes de corais e os escombros do navio na baía onde se lê Mar del Plata e a bandeira de los hermanos tremulando no mastro, os fictícios tesouros ali perdidos, o medo de te perder também, o coração batendo com taquicardia, o ar seco, a luz crua, um estranho sentimento, um céu poderoso, a marca de vodka dançando sobre um ataúde, a serpentina serpenteando uma harpa como se visse uma impossível musa, as cortinas oscilando, o vento vogando no entremeio, os móbiles a esmo, a água da chuva nos vidros da janela da noite passada, tudo reverbera, e os filamentos são as nervuras de uma pétala encoberta pelas cascas de uma noz sobre uma mesa de jantar que ainda não se despojou dos restos da nossa última ceia. Os lobos  passeiam pela grama do meu jardim, enquanto procuro minha caixa de lápis de cor para retocar a policromia do arco-íris que está desbotando como se fosse um disfarce.