quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Dário de Tão Preto

Sábado, 29, setembro


Agora estou despojado de tudo. Impertinente, só não descartei a alergia e a pose de adulto idiossincrático que carrego comigo há anos como um mal necessário. Ainda que não negue, cresci o bastante, e as roupas já não cabem em mim, mas eu as visto sem nenhum pudor. Só aquele sapato feito a mão é que guardo como um adorno de veraneio. Eu só os calço por descuido para não gastá-lo e, quase sempre, é em dia de festa quando os meus pés festivamente os acolhem com meias de algodão e saio pelas ruas com os olhos nas nuvens e, ao mesmo tempo, nos sapatos como se carregasse nos pés uma joia, embora, os que me olhem, pensem que estou à procura de alguma coisa que perdi pelo caminho. 


Ah! Estas areias! Estas andanças! Esta corda de enforcado! Mas eu não queria este devaneio, esta sombra me perseguindo numa escancarada manhã de sábado, ensolarada, como o diabo prefere. Esta promessa de espuma alvíssima, o mar da enseada, a leve impaciência, a chave perdida, os vampiros sugando sem cerimônia o meu sangue em plena luz do dia, os burocratas conspirando dia e noite, as raspas de manteiga no fundo do pote, o travo nos maxilares, os arrecifes de corais e os escombros do navio na baía onde se lê Mar del Plata e a bandeira de los hermanos tremulando no mastro, os fictícios tesouros ali perdidos, o medo de te perder também, o coração batendo com taquicardia, o ar seco, a luz crua, um estranho sentimento, um céu poderoso, a marca de vodka dançando sobre um ataúde, a serpentina serpenteando uma harpa como se visse uma impossível musa, as cortinas oscilando, o vento vogando no entremeio, os móbiles a esmo, a água da chuva nos vidros da janela da noite passada, tudo reverbera, e os filamentos são as nervuras de uma pétala encoberta pelas cascas de uma noz sobre uma mesa de jantar que ainda não se despojou dos restos da nossa última ceia. Os lobos  passeiam pela grama do meu jardim, enquanto procuro minha caixa de lápis de cor para retocar a policromia do arco-íris que está desbotando como se fosse um disfarce.

13 comentários:

  1. Um olhar apurado, onde nada se perde...e esse minuto fugaz onde consigo vestir sua pele e sentir.
    Andei também pelas suas pegadas. E gostei.
    Beijos,

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    1. Oi, Tania,
      Quem disse que tenho um olhar apurado? Uso óculos para enxergar as coisas, quando não uso o tato... Tocá-las também é sempre bom. Gosto de vê-la nas minhas pegadas porque já sigo as suas há bastante tempo.
      beijoss

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  2. Nas nuvens, cabem sapatos, mas se encaixam mesmo os pés, principalmente os que tropeçam acostumados com as quedas livres.
    No arco-íris, não sei. Que ele disputa nossos olhos com o horizonte. Se dá bem com nuvens. Talvez, seja delas o lápis de cor.
    Beijoss :)

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    1. Lena,
      Quis compartilhar as tuas nuvens comigo, pois nas nuvens os dias sempre cantam e, de lá, a gente olha o mundo sem espanto. Tomara os meus sapatos não as tenham conspurcado, e você me deixe compartilhá-las novamente.
      beijoss

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  3. ...traigo
    ecos
    de
    la
    tarde
    callada
    en
    la
    mano
    y
    una
    vela
    de
    mi
    corazón
    para
    invitarte
    y
    darte
    este
    alma
    que
    viene
    para
    compartir
    contigo
    tu
    bello
    blog
    con
    un
    ramillete
    de
    oro
    y
    claveles
    dentro...


    desde mis
    HORAS ROTAS
    Y AULA DE PAZ


    COMPARTIENDO ILUSION
    JOSE CARLOS

    CON saludos de la luna al
    reflejarse en el mar de la
    poesía...




    ESPERO SEAN DE VUESTRO AGRADO EL POST POETIZADO DE LEYENDAS DE PASIÓN, BAILANDO CON LOBOS, THE ARTIST, TITANIC SIÉNTEME DE CRIADAS Y SEÑORAS, FLOR DE PASCUA ENEMIGOS PUBLICOS HÁLITO DESAYUNO CON DIAMANTES TIFÓN PULP FICTION, ESTALLIDO MAMMA MIA,JEAN EYRE , TOQUE DE CANELA, STAR WARS,

    José
    Ramón...

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    1. Caro Ramón,
      É bom tê-lo ruminando meus silêncios que sangram pela escrita. Volte sempre, que já, já, a galope estarei olhando o horizonte do seu blogue.
      Grande abraço,

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  4. Excelente! Lapada logo nas primeiras linhas.

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    1. É de lapada em lapada que, às vezes, a gente enche a cara. Obrigado por mais um gole!
      Abraços,

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  5. Uau! Reverberar é verbo tão lindo - bule com todas as palavras que o rodeiam. Então elas ficam assim, saltitantes, como esse sapato-adorno-de-verão, que adorei.
    Parabéns pelo texto, José! lindo, lindo.
    abraçao

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    1. Uau! Sem tatibitate, tati, adoro a espontaneidade dos seus comentários. Os sapatos não combinam com os seus delicados pés, mas, pelo menos, disponibilizo para você conhecê-los.
      beijo,

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  6. Li, de novo! E, de novo, a mesma sensação doída e vibrante. Há algo de mim neste texto, talvez a fala corrida, cheia de vírgulas, tantas coisas vomitadas a um só tempo...! Dos que li até agora, o número 1. Muito bom mesmo! Vou levá-lo.

    Um abraço,

    Suzana Guimarães - Lily

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  7. Fiquei sem fôlego.
    Tanta coisa, tanto narração, tanto sentir, tanta emoção.

    Tão Preto se apressa no mundo e não quer perder pitada.

    Uma crónica repleta de vida, energia e os sapatos se destacaram, para mim, claro.

    Que avida te seja sempre amiga e os teus olhos não se imobilizem,,,,continua...continua sempre.

    beijinhos

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