quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Elegia



             Para D. Clélia Vieira, 87 anos,
             que sempre foi o chapéu da família.

          Este chapéu já não cabe na minha cabeça, não choro por ele porque já o sei perdido, mas lhe ofereço a minha saudade.

          Não me olhe de viés, meu encantado chapéu, que ainda quero fazer-lhe um pedido: abre as tuas abas enormes sobre mim e deixe-me cortejá-lo, uma vez mais, como a uma dama, pois sempre fostes um apetecido porto e agora tu deixas a minha cabeça desterrada, umedecida, cão sem dono, pela falta do teu agasalho, da tua proteção.
 
          E quero que saibas ainda o quanto achei bom, meu cordato e velho chapéu, que nenhum vento áspero tenha arrebatado a semântica do teu feltro, nem o folio das tuas angústias ao meditar, lado a lado, no velho largo nosso de cada dia.
 
         Deixe que eu o segure, ainda que não mais o queiras, pelas tuas curvaturas com o carinho de sempre. Assim eu posso lembrar-me dos cristais de neve das tuas abas; dos cristais metafísicos de ânsias que se derretiam quando a lua o beijava no banco da praça.
 


         Meu aromático chapéu, envelhecido como um barril de carvalho, sei que chegou a tua hora, vai tenso e taciturno, porém lúcido, e com visão mais funda, em túnica de festa, vai! E descansa em paz!

    


11 comentários:

  1. Não sei se entendi.
    Sei que sinto enorme aperto no peito.
    Quem descansa em paz?
    Quem??

    Beijo

    Lelena

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    1. Explicando sem explicar para Lelena e Tânia :)
      As duas estão certas. É para sentir. Talvez eu tenha inconscientemente cometido eutanásia com D. Clélia, sobretudo, com o uso do pretérito perfeito na oração adjetiva da dedicatória, “que sempre foi o chapéu da família”, que se acopla ao conceito de circularidade que permeia um texto poético ao se juntar ao fecho do texto – “E descansa em paz”. Neste caso, talvez estejamos diante de uma prosa poética, se eu não estiver sendo pretensioso considerando-o como tal. A verdade é que D. Clélia deixou de ser o chapéu que sempre o foi pelo estado de debilidade em que se encontra. Saibam, contudo, que há uma representação do real em relação ao chapéu, pois, antes de tudo, canto o meu velho chapéu que, literalmente, me abandona, o mesmo que faz D. Clélia, na pele e nos ossos, com o passaporte devidamente carimbado aguardando a chamada para o embarque. Mas objetivamente o sujeito de enunciação se despede do chapéu, ainda que por extensão o chapéu se refira àquela senhora.
      Se olharmos o campo semântico do texto, apreende-se que se estabelece uma íntima relação com chapéu, ainda que as escolhas só pertençam ao campo semântico de chapéu por associação, por um recurso mítico da linguagem ou por associação metafórica, contudo, graças à idéia da ambigüidade ou da plurissiginificação tendemos associá-la a um súbito desaparecimento dela, a velha senhora, mas tal não aconteceu ainda.
      De qualquer maneira, reitero que o texto se refere às duas situações, às duas despedidas, uma imediatamente palpável, a outra, imediatamente sensível.
      Beijoss,

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    2. Eu senti exatamente assim. E mais uma vez muito grata pelo livro que virá.

      Beijos,

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  2. "E quero que saibas ainda o quanto achei bom, meu cordato e velho chapéu, que nenhum vento áspero tenha arrebatado a semântica do teu feltro, nem o folio das tuas angústias ao meditar, lado a lado, no velho largo nosso de cada dia."

    Isso me chega tão fortemente ao coração... Lendo a Lelena acima e pensando: não, não é para entender, é para SENTIR.

    Beijos,

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    1. Não a deixei sem resposta, Tânia. O aperto no coração é muito maior no meu pelos laços afetivos que nos prendem.
      Por favor, me mande por email o endereço para mandar-lhe o livro de Eduardo. Só vai me dar prazer enviá-lo.
      bjss

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  3. Cá pensando no chapéu de minha família.

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  4. aromático..., visão funda..., túnica de festa... tirei o chapéu, José!!

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    1. Guarde-o com carinho, Tati. Você pode precisar recolocá-lo. Um chapéu é sempre um detalhe importante!
      Abraços

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  5. Sobre o formato do poema lá no Sábados de Caju que você e alguns comentaram, trabalhei com redondilhas maiores e menores entre 2008 e 2012 sempre no formato 4-3-3-4, ora sete sílabas nos quartetos e cinco nos tercetos, ora o inverso. Todos os poemas são do Lâmina de 3 Gumes: http://fredcaju.blogspot.com.br/search/label/L%C3%A2mina%20de%203%20Gumes
    Pelo blog ou pelo Castanha Mecânica é possível baixar. Grande abraço!

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    1. É sempre interessante uma aula de versificação. Já não se estuda versificação nas escolas, incluindo as de Letras.
      Abraços

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  6. Uma metáfora?

    De qualquer das formas é um texto personificado onde o chapéu ganha vida e responsabilidades acrescidas, de família.

    Uma inspiração emotiva onde o objecto não o é.

    Um texto muito bom!

    Sem excessos ou carências, perfeito ou não fosse o autor de se lhe tirar o chapéu...

    Beijinhos

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