domingo, 14 de outubro de 2012

Sobre o livro Confissões de um eremita



Sem medo de comprometer-me, pois a apresentação de uma publicação é sempre uma responsabilidade muito grande que nos atribuímos em relação à obra e aos leitores, afinal, criamos uma expectativa no autor em relação a um juízo ou a uma valoração do seu texto, e no leitor, porque se este começa a leitura pela apresentação, ao levar para dentro da obra que está sendo lida este juízo pode deixar-se contaminar por este julgamento, fazendo-o abandonar a leitura ou completá-la mais prazerosamente, a depender do que leia ou como leia a apresentação da referida obra. Por isso, este parecer é sempre uma faca de dois gumes.

Mas este compromisso não me deixa preocupado e, já, já, vão entender o porquê disso.

Ainda que não tenha acabado de ler inteiramente os poemas enfeixados no livro Confissões de um eremita, de Eduardo Boaventura, o que não compromete este juízo, pois é a segunda leitura que conta – o que significa dizer que os li inteiramente –, e justifico a afirmativa de que não acabei de lê-los porque o faço como ensina o poeta Carlos Drummond de Andrade, ruminando cada poema, ruminando cada verso, buscando em cada um deles a carga de sentido que encerra, ou que carrega, para decifrar o mundo através da palavra, mas me antecipo, dizendo-lhes que descobri um poeta, alguém que sabe o que fazer com as palavras e o que dizer-nos trabalhando a substância de cada uma delas para trazer-nos algo novo, para surpreender-nos, às vezes, por exemplo, com uma interpretação pessoal e, ao mesmo tempo, um louvor ao poeta Fernando Pessoa, em Ao Guardador Rebanhos, ao dizer-nos:

Agora.
É pensar com os sentidos (...)

(...)
Ao longe,
Um canto campestre ressoa,
E eu vou sentindo Fernando,
Muito bem menos poeta,
Tão simplesmente Pessoa.

E, às vezes, para discutir o ritmo dissoluto do tempo, para tratar dos sentimentos mais essenciais como o amor, ou ambos, no mesmo poema. É o que nos mostra em Paisagem:

Nada poderei fazer
Para que os anjos não levem
A tua presença encarnada

Somos sobretudo passagem
E a dor de termos memória....
(...)

Vejam que fujo do lugar comum afirmando que descobri um poeta, eu não digo que descobri mais um poeta, afinal, vivemos numa terra pródiga deles, embora o fato de descobri-los seja uma fonte de prazer neste mundo cada dia mais intangível pelas durezas de um individualismo atroz, de um prosaísmo sem fim, que consome nossas energias de forma vã ou mesmo de uma violência avassaladora. Descobri-los, no entanto, é um bálsamo, pois eles são capazes de tornar este mundo quase inóspito mais acessível pelo acontecimento da palavra, pelo acontecimento da memória, sobretudo, neste caso, que se faz pelos dois caminhos.

E eu diria mais. Eu diria que esta profissão de fé na palavra e na memória constitui a epígrafe, síntese acabada, perfeita, do que significa este livro de Eduardo Boaventura e, mais do que isso, a epígrafe é uma criação do poeta, mostrando-se consciente do seu fazer poético: “Metade do que fui, inventei / A outra metade é memória” como a deixar claro de que o seu intento é aprisionar um tempo de invenção enquanto instância de vivência individual, acoplando-se à memória através da história que flui à medida que se acentuam as relações entre o amor, a natureza e a beleza nos poemas, denunciando que, entre um verso e outro, convivem o poeta e o filósofo, pois, ao mesmo tempo em que se aventura pela palavra poética, desce aos porões da filosofia, buscando também a água para a sua sede, como nos versos de Canção do poeta:

Deixai-me em paz, pelas margens
Dos rios que olho passar...
Não me seduzem as viagens,
Meu verbo é ser, não estar.

Filósofo de formação acadêmica, “Meu verbo é ser, não estar”, é o primeiro de muitos índices dessa convivência homogênea entre os dois criadores que alcançam um padrão de naturalidade e equilíbrio em busca de uma determinada conformação no mundo, revelando uma individualidade, mostrando a força do seu sentimento e uma natureza contemplativa, fruto do casamento entre as duas searas: a do poeta e a do filósofo que se complementam, formando um par e encontrando o equilíbrio através das duas vertentes.

É bom que se diga ainda que os poemas, quase sem exceção, são escritos de forma simples, mas trazem consigo o rigor poético, um caráter apolíneo, como mostra, dentre outros, a Brevíssima História Universal, em que o poeta mostra a natureza da sua arte poética na beleza dos versos iniciais deste poema:

O que o tempo promete,
A eternidade esquece...

O que dizer de nós?
(fragmentos do amanhã,
Poeiras da tarde,
Instantes da noite)

– Um breve milagre da vida...

Por fim, ler Eduardo Boaventura é mergulhar na sua dicção absorvendo cada palavra, cada sílaba, buscando-lhe as harmonias; é estar atento à métrica que escorre por alguns poemas, ao aparato formal que dão força à sua concepção poética, à sua linguagem, deixando-nos a certeza de que “Todos os mais belos dias / São de infinita renúncia” para o fazer poético deste novo artista da palavra, que, na verdade, já não é tão novo assim.

7 comentários:

  1. Respostas
    1. Manda o endereço que peço ao autor para enviar-lhe um exemplar. Ou melhor, eu mesmo o farei.
      Abr.,

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  2. Coisa que sempre gostei: ler a apreciação sensível sobre algum escrritor, poeta...porque é impossível não haver poesia aí também. Olha, eu li seu comentário aí acima, para o Fred e quero também! :-) Nossa, quero muito. Pelo li aqui, isso é pra ruminar por dias. Também aprendi com o Drummond: eu rumino. E às vezes por meses. A apresentação certamente está à altura do poeta.
    Abraços,

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    1. Oi, Tania,
      Que bom que você gostou. Sei que somos conterrâneos.
      Ainda assim, dê-me o seu endereço que mandarei um exemplar amanhã pelos Correios. Já irei mesmo aos Correios para postar outra carta, aproveito mando o exemplar, esperando que os poemas de Eduardo Boaventura provoque em você o mesmo entusiasmo que me levou a fazer a apresentação deles.
      Abraço forte,

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  3. Gostaria, se possível, o contato de Eduardo. Fomos colegas no ginásio, em Salvador, e não possuo contato dele. Agradeço se puder enviar o mesmo para o email vicente.bezerra@bol.com.br

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