quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Diário de Tão Preto III



 Imagem capturada no google

Qualquer hora ou tanta coisa. 
Nunca saberia dizer o que é melhor.
Millordiei legal e gostei de fazê-lo, porém não deixei nenhuma pegada na minha sintaxe depois dos píncaros. 
Quando tudo é pó, o poeta já não precisa de bússola, ainda assim os impressos da retina vão e voltam feito mofo. 
Também ainda não vi casco sem ferrugem.
E não adianta dizer-me que o vento a leva para longe porque no alto-mar o que mais a gente sente são as ondas do íntimo.
Ou o dia-a-dia da roleta russa na proa do navio. 
Ou ainda a calmaria nas entranhas palpitantes. 
O noturno de Chopin, se soprado pelo vento praieiro, é uma poética enigmática, é uma língua suada sem nenhuma semântica. 
E eu nunca me envenenaria numa primavera, emproado num navio, mas me lambuzaria num mar revolto. 
Ou em qualquer outra parte do continente. 
O mundo é uma espuma suja, por isso, pulando as apodrecidas escamas, alo-me como se tivesse pernas de pau,
cruzando a pátria clandestina do meu jeito, sem clave ou pentagrama, ainda que um blues tranquilizasse o meu coração. 
Em cada nó de marinheiro um roxo-violeta desengrinalda as ondas, os sais, os sargaços, dessentindo as nuvens e lapidando a dor em mármore de palha. 
Abaixo a ressaca, a língua do mar, as âncoras, o pélago, os corais, pois salivando estes versos trôpegos me embriago em nave líquida.
Salivando estes versos trôpegos, sem quebrar a louça, insone, eu caminho trôpego por este azul piscina.
E não guardo as cicatrizes deste mar porque ele é meu mediterrâneo, nele as garoupas tão perto de outrora fisgam o meu anzol na linha d’água das minhas tessituras.

8 comentários:

  1. Uau!!!! Ando lendo o que me desintegra, me despe, de desconstrói, me encanta, me arrebata. Esse roxo-violeta desengrinaldando as ondas e eu tonta: bah...tão bom te ler!
    Beijos,

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    1. Já senti tuas pegadas (rsrs). Obrigado. E vamos juntos desengrinaldando tudo que encontrarmos pela frente, ainda que não seja roxo-violeta...
      beijos, Tânia, beijos,

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  2. "Qualquer hora e tanta coisa" e sempre, sempre por aqui também estas "ondas do íntimo" que nunca se acalmam, caro. Bom mesmo foi mergulhar aqui em tuas águas.Beijos.

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    1. Bom mesmo é reencontrá-la aqui mergulhando em minhas águas sem medo de afogar-se.
      beijoss

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  3. Muito bom, poeta! Sempre evidenciando sabedoria e talento em seus poemas...
    "Salivando estes versos trôpegos, sem quebrar a louça, insone, eu caminho trôpego por este azul piscina". Parabéns!

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  4. Interessante esse quase diário metapoético. Abraços!

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  5. Tua roleta-russa é com bala de canhão! E com essa potencia toda, José, nao ha duvida de que teu tiro atravessará espuma suja, pulará as apodrecidas escamas, cruzará continente e chegará onde tem que ser.
    Abraço pra ti, amigo.

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  6. Caro Tão,

    Aproveito você estar por aqui e lhe pedir um favorzinho,pode ser?

    Quando falar com o José Carlos, diz-lhe que vai sair uma publicação sobre ele, logo mais à noite, na minha ostra.

    Quanto ao teu diário:
    A ferrugem se limpa, a pele se engoma, os continentes se movimentam e o mar...ah! o amar! é aquela beleza que faz valer a pena sonhar.

    Limpa teus armários, sacode o pó e te limpa, purifica na luz da aurora, te renova na noite dormida.

    Um grande beijinho, Tão.

    (não esqueça o meu recadinho, tá?)

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