sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Quase poesia

Imagem e texto da ilustração de Vânia Jordão


Cansei da alfândega da minha vida,
das entranhas roídas de mim mesmo.
Agora já não me vigio na fronteira
e me despenco num tapete voador

que me conduz a uma estranha lua,
apagando rastros da antiga cartografia.
Livre do tempo, eu já não me pertenço.
E porque âncoras interditam meu caminho,

a minha mão convulsa afaga o breu
que nunca existiria se não fosse
o azul uniforme deste frágil instante.

E se não desmorono ante tal ruína,
é porque este sangue nos poros
do negrume é a coisa que me procura.

19 comentários:

  1. Belo poema! Não sei ao certo por qual razão o título do texto é "Quase poesia", se ele é 100% poesia. Amo esses textos em forma de soneto, quando rico em conteúdo, mesmo sem métrica, mas repleto de poesia.

    Parabéns!

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    1. Acho que a métrica não faz tanta falta, Carlos. Me preocuparia você dissesse que falta ritmo no poema.
      Talvez o título do poema reflita o que me falta no momento :)um pouco de poesia.
      Obrigado pela valiosa leitura.

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    2. Verdade, nobre poeta!

      Disse e repito: Lindo poema!

      Abração!

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    3. Carlos,
      Desculpe-me posso ter parecido arrogante, mas não quis sê-lo. Sei que os sonetos ficam bem ser obedecendo à métrica, à rima, com o fecho de ouro. Também sei que para um poeta menor como eu sou é camisa de força, daí que... Fiquei feliz com a sua leitura e o seu comentário.
      Grande abraço,

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    4. Que nada, colega! Eu entendi e não achei arrogância alguma. Vou repetir aqui, com a sua permissão, é claro, o comentário que fiz num daqueles sonetos lá do meu BLOG, o qual você comentou: "Na verdade, nobre poeta, a maioria dos sonetos que escrevo não segue uma "forma fixa". Apesar de já ter escrito textos buscando essa perfeição da forma, acho que, talvez, eu tenha um certo receio de me preocupar demais com a forma e esquecer de tratar o conteúdo. E olha que isso já aconteceu :) ! Obrigado, pelo seu importante comentário!".

      Grande abraço, caro José Carlos Sant Anna! Estarei sempre viajando para esse seu espaço.

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    5. Então, vamos relaxar. Há um sol radioso lá fora...
      Abr.,

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  2. Uau! José, esse poema é para ler e depois rasgar o passaporte, o CPF, as fotos 3x4, todos os rastros materiais da identidade. Belo, muito belo!

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  3. Massa! E bom lembrar que o texto da imagem é da Vânia Jordão.

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    1. Já dei o crédito para a Vãnia Jordão. É que eu não sabia. Eu a recebi em outra mensagem sem o devido crédito, achei interessante para ilustrar o meu texto e pimba na gorducha.
      Estarei atento para que não se repita. Mais do que isso, criarei o hábito de dar o crédito às imagens e texto (quando for o caso), usados no meu blogue.

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  4. Tou levando para o facebook esse cansaço feito de beleza e rebeldia!

    Beijoss :)

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    1. É bom que fico um pouco na sua companhia, igualzinho a um rio, sem olhar para trás.
      beijoss

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  5. A esse azul uniforme do frágil instante...e cada pedaço de espelho, como um mosaico, onde me vi tanto, sabia? Parabéns, garoto, seus versos sempre me alcançam profundamente.
    Beijos,

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    1. Menina, você é pássaro cantando noite e dia e,também, adoro me abeirar do seu canto.
      Aguardo aquele endereço para a remessa do livro,
      beijos,

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  6. Eu te mandei o endereço por e-mail desde aquele dia! Não recebeu? Vou enviar novamente.

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  7. Lindo poema, José Carlos! Essa "coisa que te procura" é
    mesmo fascinante: liberta de rimas e métricas adquire seus próprios contornos, plenos de conteúdo!

    um beijo

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  8. Nem sempre as coisas são simples, Ci. Essa "coisa que me procura" ainda não me achou, mas não tenho pressa.
    beijo,

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  9. sangue nos poros pulsa poesia!
    Insiste a vida, não?

    Identifiquei-me. Perfeito nesta imperfeição que somos e toda vida é.

    Beijos e ótimo final de semana pra vc.

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  10. Como é bom pegar num tapete voador e atravessar fronteiros no sopro do vento, na asa tecida no tear do querer.
    E por aí, te perdes, alcanças a Lua e já nem lembras o outrora.

    Não vires a cabeça, segura-te no tapete e o negrume não atingirá a tua velocidade.
    Basta quereres, acreditares com garra, bem lá no íntimo.

    Beijinhos, totalmente poeta!


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