sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Sem batismo

Aquarela, 1914. 
Esta obra, de autoria de August Macke (1887-1914), 
está no Westphalian State Museum of Art and Cultural History.

Todos estavam mortos e nenhuma mancha de sangue. O pintor é que sustinha o pincel ainda molhado na mão direita, enquanto a esquerda, com um lenço, enxugava o suor que escorria pelo rosto, descia pelo pescoço e molhava o colarinho de sua camisa.

A pintura ainda repousava sobre o cavalete aguardando que a tinta secasse completamente e já se ouvia um burburinho no ateliê.

Parecendo alheio a tudo, notava-se um brilho diferente no olhar do artista que, sem despregar os olhos da sua obra, guardava os pincéis na sua maleta, aliás, uma obra que todos ali se curvavam pelo realismo exacerbado e se perguntavam, sem ouvir respostas, de onde vinha tanta inspiração para um autodidata e que já alcançava, era notório, um sucesso em escala nacional, sendo notícia em vários veículos de comunicação.

O ateliê recebia dezenas de visitas por dia para vê-lo manejando as tintas com tanta leveza e, depois, embaralhando-as sobre a tela, dando forma e vida às suas criações como esta que acabava de pintar para a alegria de todos que, ali, o rodeavam naquele momento, e, certamente, depois, na próxima exposição que faria, quando aquela tela despertaria a cobiça dos que gostam de arte.

Todos já o reconheciam como um grande artista. Já não havia preocupação de nenhuma natureza em sua vida por conta do seu sucesso, era o que todos imaginavam.

Por outro lado, ele nunca se preocupou com o fato de estar constantemente cercado de pessoas estranhas, sem saber a origem de cada uma delas, a fazer-lhe perguntas, às vezes sem pé nem cabeça, sobre as suas criações.

Aquela obra, antes de ser concluída, havia provocado dúvidas e ilações em todos os que o acompanharam no processo de criação no ateliê esta manhã. Agora a obra já não lhe pertencia. Ao admirá-la, cada um que achasse o que quisesse, ou o que perdesse, dizia para si mesmo.

Do outro lado da cidade, num bairro de classe média, numa casa confortável, enquanto acabava de colocar seus objetos pessoais numa bolsa de viagem, Maria abriu uma gaveta, apanhou uma luva, calçando-a, e guardou, antes que a polícia civil viesse para a investigação, a arma do crime num fundo falso do armário, que apenas ela conhecia.

Ela não deveria ter escondido a arma do crime, sabia, mas havia o desejo inconsciente de proteger o patrão, embora não tivesse a certeza de que ele tivesse cometido os crimes.

Por impulso, ela estava fazendo o que não deveria ter sido feito, bem o sabia, mas agora já não se importava com isso, embora tivesse muito medo de que lhe imputassem alguma culpa, pois o que ela queria mesmo era ajudar o patrão, por não acreditar que ele fosse o autor dos hediondos crimes praticados contra sua família.

Esperava pela Polícia Civil que tinha sido acionada por ela mesma, descrevendo ao Delegado a cena do crime tal como a tinha encontrado ao abrir a porta e entrar para fazer o seu trabalho na casa. Era uma diarista e trabalhava para o pintor e sua família três vezes por semana, fazia quase vinte anos.

Ela estranhara não tê-lo encontrado em casa, na cadeira de balanço, lendo o seu romance, enquanto esperava pela sua vinda, como ele o fizera religiosamente nos últimos vinte anos. Afinal, desde que chegara à casa da família dele para fazer aquele trabalho, era a primeira vez que não o encontrara ali sentado. O pintor só saía para o seu ateliê depois que ela entrava e começava a fazer as suas tarefas. E isto nunca acontecia antes das nove da manhã. Por precaução, não disse isso, pelo telefone, ao Delegado, quando lhe contou como encontrara a casa.

Quando os investigadores chegaram, Maria os recebeu na sala de visitas e lhes mostrou os corpos dos pais dele mortos, ainda no quarto, e o do irmão, na sala, respondendo em seguida a uma série de perguntas e tirando as dúvidas dos investigadores.

O interrogatório, que se arrastava, estava deixando-a angustiada, pois não queria ser arrolada como uma das testemunhas, muito menos como uma suspeita.  Mas, sem titubear, seguiu em frente, dizendo o que sabia. Os investigadores sabiam que ela não era uma criminosa, mas precisavam do seu testemunho, de ouvi-la sobre cada um deles.

Depois de fotografados os corpos, os investigadores vasculharam a casa toda em busca da arma do crime e não a acharam, embora soubessem que o criminoso ou os criminosos usaram uma arma branca.

Voltaram a fazer perguntas a Maria sobre a arma do crime e ela, dizendo que não mexera em nada e que ligara imediatamente para a delegacia, repetiu o que sabia, omitindo o que fizera com a faca, pois agora era tarde para recuar.

Cheios de dúvidas, mas como, de qualquer modo, já não havia muita coisa a fazer ali, na casa, os investigadores pediram a Maria que os aguardasse, sem tocar em nada para não violar a cena do crime, enquanto eles iriam conversar com o pintor no ateliê. E saíram.

Encontraram-no com os visitantes que permaneciam ali, no ateliê, admirando aquela expressão de arte, que parecia real aos olhos de todos. E como se nada soubesse da manhã sangrenta em sua casa, o pintor brindava alegremente o novo quadro do seu acervo, ainda sem batismo, no cavalete. 

19 comentários:

  1. Carlos, fantástico...Acabei de reler. Onde estavas que eu não o encontrei antes? :-) Talento enorme, menino! Ah, obrigada, mais uma vez, pelo livro. Espero que um dia desses seja o seu, que já promete ficar à minha cabeceira. Muito bem construída a trama. Um texto e tanto!
    Beijos,

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    1. Não é tanto assim, Tânia. Depois de muita transpiração, às vezes, acertamos a mão. Mas você é dona de um talento muito grande, que eu não canso de admirar, de ler, reler, treler.
      Maravilha que o livro já chegou às suas mãos.
      E agora vamos tocando a vida sem vírgula porque o melhor é tocá-la sem pausa.
      beijoss,

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  2. É muito bom conhecer o trabalho de artistas tão talentosos: você, caro José Carlos Sant Anna, Tânia Regina, Lelena, Parole (acho que é Salete o nome da artista), Domingos Barroso, dentre outros.

    Abraços

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    1. No meu caso, Carlos, é o estalo de Vieira que eu aproveito, sobretudo quando as moscas estão tontas, ou quando bate uma nostalgia, aí eu pego a pena... Mas, sem dúvida, também tiro o chapéu para os cabeças coroadas indicados. São grande artistas da palavra.
      Grande abraço,

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  3. Que começo de texto forte da porra!

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    1. Às vezes, não há espaço para romantismo. A narrativa se quer forte desde o primeiro impulso.
      Abra.,

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  4. Quanta estranheza senti nesse conto!
    E quanta surpresa também. Esse é um José Carlos que conheço menos.
    Adorei o texto :)

    beijoss

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    1. Mas não se preocupe, Lena, sou incapaz de matar uma mosca. Esta narrativa estava hibernando no blog como rascunho até que pediu exposição como a obra do pintor. Depois, a gente senta para escrever sabendo como começa, mas nunca como termina.
      beijoss

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  5. José, de onde saiu essa matança toda??? Siniiiistro!.. rsrs
    Eu gostei, sobretudo os 3 primeiros parágrafos, são tão irretocáveis que a história poderia até terminar ali. Mas aí não seria história, seria provocação! ;)
    Abração!

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    1. Ainda bem que não está em primeira pessoa, sei em que lugar está escondida a arma do crime juntamente com o leitor, mas confio nele, logo não contaremos o segredo de Maria porque não temos vocação para alcaguete...
      Abraço forte

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  6. José Carlos, vim testar se tem ainda o código de verificação de palavras de quem a Ci falou.
    É mesmo complicado.
    Eu tenho de tentar sempre umas duas, três vezes até conseguir.
    beijoss :)

    ps. Aparece a verificação de letras. Já errei na primeira tentativa. Você tem de entrar nas configurações do seu blog para tirar. Não me lembro onde exatamente. Minha cabeça anda meio fraca rsrs

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    1. Lelena,
      Fiz a modificação. Agora é só tentar para verificar se os "garranchos" teimam em sabotar o meu blogue! rsrs.
      Como você é "a menina dos recados", diz a Ci.
      beijoss
      P.S.: E a minha meio desabotinada!

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    2. Teste da "dessabotagem alfabética": tchan, tchan, tchaaaan...:)

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    3. Agora o blogue é todo seu, Ci. Sabe, desde a abertura, ele funciona com os "garranchos" e eu não sabia. Imagino que talvez outros visitantes desavisados (e não tão insistentes, rsrsrs) não tenham percebido esta sabotagem explícita, insidiosa, e se não fosse a perspicácia das minhas agentes o blogue ainda estaria em mãos inimigas.
      Aproveite o final de semana que é longo,
      beijoss

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  7. Teste!
    Três, dois, um.
    Essa mensagem entrará como comentário imediatamente ou se desintegrará nos próximos três segundos.

    beijoss

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    1. Sem garranchos, Ci já pode acordar as pedras. E adeus sabotagem.
      beijoss

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  8. Bem, agora que conseguí adentrar nesse jardim tão florido,
    após tê-lo apenas vislumbrado pelo buraco da fechadura, quero dizer que a expectativa foi longa e suada, mas valeu a pena :)
    Lí esse conto de uma só talagada, como se diz quando se toma um gole de boa cachaça e o sangue vai como que esquentando aos poucos, percorrendo todos os vasos e veias
    do nosso corpo até nos esquentar por inteiro! A cachaça é
    das boas, tem um aroma acridoce, um buquê que nos incita a tomá-la de um só trago. e eu o tomei por inteiro, o conto, sabendo que o dono desse engenho entende muito bem
    das moendas do escrever. Achei surpreendente a tua forma de escrever, e pretendo voltar a tomar outras boas talagadas para aquecer o meu sangue que tem andado meio morno nesses últimos tempos risosrsrsrsrsr

    um beijo e um feriado proveitoso

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    1. Se eu soubesse que eu leria um comentário tão generoso, já teria operado um milagre com "os garranchos", Ci (rsrs).
      Gostei muito da imagem do seu comentário, que vale também para um bom vinho. Na verdade, minha autoestima subiu um pouco, mas não posso deixar de dizer que o teu jeito de escrever é que cativante, a poesia brota com tanta espontaneidade, que seduz.
      beijo

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  9. Um texto diferente, policial, quiçá.

    Fizeste-me lembrar uma das minhas leituras preferidas de adolescência: Agatha Christie.

    Um pintor que possui dom afamado e de nascença.

    Porventura inspirado em realidades escondidas por Marias da sua vida.

    A arte tem sempre algo de real, terra que lhe serve de suporte ou inspiração, como queiras.

    Que a policia encontre o culpado e a tragédia encontre culpado.

    Quanto à arte já não tem dono, é de quem dela se apropria ao se deliciar por entre pinceladas entrelaçadas.

    Uma crónica diferente, mas gostosa, como se diz por aí.

    Beijo



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