terça-feira, 28 de janeiro de 2014

No bar



– A moça quer uma vaga? – pergunta-lhe a flanelinha.
Arranjada a vaga na porta do bar, a moça salta do carro e, aos olhos da flanelinha, mostra uma elegância fora do comum para uma frequentadora daquele barzinho, e a guardadora de carros, mais que depressa, procurando angariar a simpatia da moça para uns trocados a mais, parecendo impressionada, diz séria:
– Moça, posso lhe fazer uma pergunta meio bobinha?  
E a moça, sorrindo mais para as amigas do que para a flanelinha, diz:
– Sim, pode...
E a flanelinha, misto de curiosidade e interesse, manda ver a pergunta:
Você é modelo?
Sem controlar o riso, para a surpresa da outra, responde:
– Só se for de pepino... com casca... Não sirvo nem de modelo para mim mesma... Este corpinho, é o que me diz? Você não tem a menor ideia...
E ri descontroladamente...
Depois, segura de si e amparada nos elogios da flanelinha, entra no bar arrasando... 

(José Carlos Sant Anna) 



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domingo, 19 de janeiro de 2014

Gesso & Caliça

FILHO, Alberto Daflon; DAFLON, Fabio. 
Gesso & Caliça. Rio de Janeiro: Contraste, 2012.


Escreve Stanislau Balner em uma das abas de Gesso & Caliça: “Que digam os leitores ao que ambos vieram” depois de mostrar, o mais lírico quanto possível, a leveza das palavras na poesia de Alberto Daflon, Filho e Fabio Daflon. O primeiro médico ortopedista e o segundo pediatra: irmãos de sangue e portadores do DNA da poesia.
Como o propósito aqui não é esmiuçar a obra lida, pois, no espaço da blogosfera, urge que sejamos sucintos, é fundamental recomendar, como leitor, que comecemos imediatamente pelos poemas, deixando o prefácio, assinado por Alberto, para ser lido depois. Aliás, é sempre recomendável que a leitura do prefácio seja posterior à leitura da obra. Corrijo-me, não sei se recomendável, é como me pauto.
E, claro, o prefácio nos ajudará a compreender o caminho dos poetas até porque é assinado por um deles, o Fabio Daflon. Faça-o, então, como achar melhor, caro leitor! 
Não podemos deixar de prestar atenção e cuidado para a delicadeza da ilustração da obra. É feita por Lelena Terra Camargo, que faz um casamento perfeito com o projeto gráfico e vinhetas, de Cecília Jucá de Hollanda. Projeto criado a partir das texturas e fragmentos de imagens de Lelena, para fazer o registro com mais fidelidade com o que, de fato, somos agraciados.
Essa conjunção confere ao livro um valor estético surpreendente, pois o que se percebe é o talento dos poetas, da ilustradora e da diagramadora, formando um conjunto harmonioso, que incide sobre o prazer da leitura. 
 Ah! Os poemas! São 46, repartidos em partes iguais pelos poetas, inclusive na criatividade. Não são iguais, mas se parecem quando manejam a palavra. Cada um, portanto, assina 23 poemas. 
Embora estejam separados, os poemas se integram no livro como se fosse um único corpo, "sem fraturas", pois em cada um dos poemas são indissociáveis o ritmo, a musicalidade e o labor com a palavra articulada escrita por ou por outro: "A palavra é/ pena que voa livre, / voa poema” //, diz-nos Fabio Daflon, Filho em um dos nove haicais que integram o seu legado no Gesso & Caliça. Em todos os haicais há uma força não apenas no que diz, mas no modo como o diz, fisgando o leitor pela palavra.
Ou em Paisagem de Fabio Daflon "A paisagem é como uma duna / reaparece aqui (...) em mãos subterrâneas aladas / de um agrimensor de dores / dos partos esquecidos na sala / das dunas emparedadas no verso // tumba retangular da página”, porta de entrada para os poemas, de versos livres, que tomam conta do leitor com a linguagem inovadora e, por vezes, transgressora, permeados por sete sonetos, ricos de significação.
Permito-me pinçar uma estrofe de Nêspera na qual o lirismo de Fábio Daflon chega ao auge da sublimação da confissão amorosa, surpreendendo o leitor com a beleza, por exemplo, destes versos: “Sol quente demanda chuva/ mas temporal não mata a sede. / Nem amor me dessedenta / a têmpera com fome da tua voz// aveludada como a pele de nêspera. //
Também o poema dedicado à Lelena Terra Camargo pede uma cuidadosa leitura, atentando-se para o campo semântico no qual o poeta passeia, como de resto em toda a sua poesia, delineando um perfil ajustado à bípede que inspirou o poema. 
Vale a pena conferir. 

(José Carlos Sant Anna)


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sábado, 11 de janeiro de 2014

Resenhando



Vômito de abelha


[...]
 
[...] na Primavera, as flores desabrocham e se colorem e liberam seus olores, o que tem a ver, exata e precisamente, com as abelhas. É que elas, as flores, enfeitam-se e perfumam-se todas pelo mesmo motivo que as fêmeas se enfeitam e se perfumam: para se tornarem atraentes. No caso das flores, óbvio, elas não pretendem atrair nenhum galalau barbudo de vinte e poucos anos de idade, e sim... as abelhas! São as abelhas que, ao sugar o néctar, se roçam no pólen, que fica grudado aos seus pequenos pés. Como elas passam o dia de flor em flor, levam pólen de uma para a outra. E o pólen é, toscamente definindo, o esperma das flores. Logo, as abelhas que fecundam as flores. Quando você vê uma abelha numa flor está de certa forma, vendo uma cena de sexo vegetal, com a inclusão de um animal.
A primavera é mesmo uma festa.
Porto Alegre, setembro 1912.

COIMBRA, David. Vômito de abelhas. In: ____. As velhinhas de Copacabana e outras 49 crônicas que gostei de escrever. Porto Alegre: L&PM, 2013. p. 152.


Acabo de ler as crônicas de David Coimbra escritor, jornalista, atualmente  diretor executivo de Esportes e colunista do Jornal Zero Hora , enfeixadas no livro As velhinhas de Copacabana e outras 49 crônicas que gostei de escrever.
Se David Coimbra gostou de escrevê-las, não posso esconder gostei de lê-las. São de uma leveza tal que, uma vez começada, é quase impossível interromper a sua leitura. Seu texto é, de fato, excelente, mesmo transitando pelo difícil caminho da crônica, por onde muitos se aventuraram e poucos conseguiram chegar do outro lado da estrada. 
Coimbra está de fato à altura do grande mestre Rubem Braga, como bem o disse o jornalista Chico Castro (Jornal A Tarde, Salvador-BA), ao trazer-me um exemplar desembrulhado, como sempre o faz, para dar-me de presente. Sempre que faço um ar de surpresa com o seu jeito tosco, irreverente, de presentear-me, acrescenta: "O Sr. não vai lê-lo embrulhado, não é?". E ri.
Esse gaúcho já publicou A cantada infalível (contos), Um trem para a Suíça (crônicas, reportagens e histórias de viagens), Canibais (romance, seu primeiro romance), dentre outros.
Vale a pena conferir!  
(José Carlos Sant Anna)

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