domingo, 19 de janeiro de 2014

Gesso & Caliça

FILHO, Alberto Daflon; DAFLON, Fabio. 
Gesso & Caliça. Rio de Janeiro: Contraste, 2012.


Escreve Stanislau Balner em uma das abas de Gesso & Caliça: “Que digam os leitores ao que ambos vieram” depois de mostrar, o mais lírico quanto possível, a leveza das palavras na poesia de Alberto Daflon, Filho e Fabio Daflon. O primeiro médico ortopedista e o segundo pediatra: irmãos de sangue e portadores do DNA da poesia.
Como o propósito aqui não é esmiuçar a obra lida, pois, no espaço da blogosfera, urge que sejamos sucintos, é fundamental recomendar, como leitor, que comecemos imediatamente pelos poemas, deixando o prefácio, assinado por Alberto, para ser lido depois. Aliás, é sempre recomendável que a leitura do prefácio seja posterior à leitura da obra. Corrijo-me, não sei se recomendável, é como me pauto.
E, claro, o prefácio nos ajudará a compreender o caminho dos poetas até porque é assinado por um deles, o Fabio Daflon. Faça-o, então, como achar melhor, caro leitor! 
Não podemos deixar de prestar atenção e cuidado para a delicadeza da ilustração da obra. É feita por Lelena Terra Camargo, que faz um casamento perfeito com o projeto gráfico e vinhetas, de Cecília Jucá de Hollanda. Projeto criado a partir das texturas e fragmentos de imagens de Lelena, para fazer o registro com mais fidelidade com o que, de fato, somos agraciados.
Essa conjunção confere ao livro um valor estético surpreendente, pois o que se percebe é o talento dos poetas, da ilustradora e da diagramadora, formando um conjunto harmonioso, que incide sobre o prazer da leitura. 
 Ah! Os poemas! São 46, repartidos em partes iguais pelos poetas, inclusive na criatividade. Não são iguais, mas se parecem quando manejam a palavra. Cada um, portanto, assina 23 poemas. 
Embora estejam separados, os poemas se integram no livro como se fosse um único corpo, "sem fraturas", pois em cada um dos poemas são indissociáveis o ritmo, a musicalidade e o labor com a palavra articulada escrita por ou por outro: "A palavra é/ pena que voa livre, / voa poema” //, diz-nos Fabio Daflon, Filho em um dos nove haicais que integram o seu legado no Gesso & Caliça. Em todos os haicais há uma força não apenas no que diz, mas no modo como o diz, fisgando o leitor pela palavra.
Ou em Paisagem de Fabio Daflon "A paisagem é como uma duna / reaparece aqui (...) em mãos subterrâneas aladas / de um agrimensor de dores / dos partos esquecidos na sala / das dunas emparedadas no verso // tumba retangular da página”, porta de entrada para os poemas, de versos livres, que tomam conta do leitor com a linguagem inovadora e, por vezes, transgressora, permeados por sete sonetos, ricos de significação.
Permito-me pinçar uma estrofe de Nêspera na qual o lirismo de Fábio Daflon chega ao auge da sublimação da confissão amorosa, surpreendendo o leitor com a beleza, por exemplo, destes versos: “Sol quente demanda chuva/ mas temporal não mata a sede. / Nem amor me dessedenta / a têmpera com fome da tua voz// aveludada como a pele de nêspera. //
Também o poema dedicado à Lelena Terra Camargo pede uma cuidadosa leitura, atentando-se para o campo semântico no qual o poeta passeia, como de resto em toda a sua poesia, delineando um perfil ajustado à bípede que inspirou o poema. 
Vale a pena conferir. 

(José Carlos Sant Anna)


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2 comentários:

  1. Olá José Carlos, muito bom e elucidativo o seu texto. É interessante você postar algo que nos interessa. Fiquei curiosa com o nome do Fábio Daflor. Vou ler mais sobre ele. Grande abraço!

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  2. Penso que já algo sobre o autor e com sua recomendação já anotei na agenda.Vivo parando em livrarias com o caderninho na mão ,
    Gostei muito da resenha Carlos _instiga a leitura,
    deixo abraços

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