quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

A sopa de ervilhas



O marido ria pelos cantos da boca com a inesperada reação do garçom...
Quando saíram do hotel para jantar, ela disse:
– Fagundes, vamos novamente à Cantina do Mosquito? 
E fazendo-lhe um carinho no fundo do táxi, arremata:
– Hoje pedimos um consommé de frango de entrada, depois um risotto de frutos do mar, lá escolhemos a massa. Era tão fino aquele restaurante, não era? Era a minha cara. Você gostou?
Fagundes fez ouvidos de mercador e soprou o Mosquito para longe e se dirigiu a uma casa portuguesa, com certeza, para degustar um bacalhau. 
Ela fez biquinho e já entrou no restaurante dizendo-lhe baixinho:
– Isto é lugar que me tragas... uma espelunca.   
Sentaram. O garçom veio servir-lhes. 
Ele pediu um caldo verde, ela uma sopa de ervilhas. Aceitaram o vinho do porto de aperitivo e as torradas.
Enquanto aguardavam, olhavam a decoração retrô do restaurante. 
O garçom trouxe as duas tigelas fumegantes e se afastou.
Bebiam e conversavam. 
Desconfiado, o garçom os espionava discretamente um pouco afastado, pois a mulher, volta e meia, mostrava a tigela e dizia:
– Isso é carne de porco, Fagundes, eu detesto carne de porco, você sabe, não é?
Mesmo afastado, parecia que o garçom entendia a conversa dela; pela entonação, ele desconfiava que houvesse alguma coisa ali.
Enquanto isso, Fagundes cuidava de si.
Intrigado, o garçom não se afastava da mesa deles, pois não entendia porque, apesar de tudo, ela sorvia a sopa com tanto prazer.
Quando, na tigela, sobraram poucos grãos de ervilha, as tiras de carne e fios do caldo, ela olhou o garçom disposta a indagar-lhe se era carne de porco. Apenas isso, era o que ela queria saber.
O garçom, um português sem papas na língua, pressentindo com algum equívoco o que vinha dali, se dirigiu à mesa disposto a não engolir nada em seco e, antes que ela dissesse qualquer coisa, se antecipou à farra dizendo:
– Minha senhora, depois que bebestes o caldo todo é que tu vens reclamar, ora, faz-me o favor, a senhora não está na sua terra não!
E, no mesmo passo, voltou para apanhar a bandeja e retirar a louça da mesa, sem ouvir o que ela tinha a dizer. 

(José Carlos Sant Anna)

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7 comentários:

  1. O que não faz um consommé caro José Carlos!

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  2. José Carlos , gostei do texto e do blog que acabei de conhecer.
    Parabéns .
    Beijos

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  3. [ só o marido a entendia....que a via
    com os mesmos olhos(míopes e cansados)]


    beij0

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  4. Percepção de linguagem corporal não é para os garçons ,pelo visto! rs
    e_ bairrismo em restaurante pode ser motivo de dispensa...
    Mais uma e esse garçom fica desempregado rsrs
    bom apetite Carlos e abraços

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  5. Perfeito, José Carlos. Eu estive ali por perto, acompanhando tudo curiosamente. Estava do lado do garçom. Sua narrativa é de primeira.

    Beijos,

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  6. Entrei por acaso. A fachada meio portuguesa meio brasileira despertou a minha curiosidade e o titulo do post veio a calhar em hora da janta. Resolvi ficar e em boa hora o fiz já que o texto me prendeu do inicio ao fim. Fiquei fã. Vou voltar sempre que possa.
    Um abraço e uma boa semana

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  7. Oh!!!
    Queria tanto saber das queixas da madame.

    Assim não vale, deixares-me curiosa.

    Um beijo português

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