quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Da oficina






Cinzenta tarde de agosto. Um sol tímido se punha às margens da vida. Carlos se levantou, abriu as cortinas e viu um vaso de porcelana chinesa transbordando. Era a sua vida que escorria, ia montada na garupa da égua da infância transportando as barricas de água para vender na feira. Carlos deixou que escorresse a última gota e apanhou um livro na estante e correu os olhos pelo poema. Antes que chegasse à última sílaba do último verso, percebeu que as palavras enfileiradas desciam uma a uma da página e fugiam por debaixo da porta, deixando as páginas de Tabacaria nuas, onde a mácula da tinta, que enchia cada página de sentido, tinha desaparecido. Só então se dera conta que tinha nas mãos um exemplar da obra de Fernando Pessoa.
E antes que Pessoa saísse não se sabe de onde e lhe perguntasse se estava fazendo bullying com o Esteves, abriu a porta para apanhá-las de volta e devolvê-las à página que morria de frio sem a proteção que elas davam à página.  Carlos conhecia aquele frio.

(José Carlos Sant Anna) 

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6 comentários:

  1. [um baile de poetas colorindo
    o desejo de seguir o caminho]

    a d o r o !!

    beijã0

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  2. "O Amor

    O AMOR, quando se revela,
    Não se sabe revelar.
    Sabe bem olhar p'ra ela,
    Mas não lhe sabe falar.

    Quem quer dizer o que sente
    Não sabe o que há de dizer.
    Fala: parece que mente...
    Cala: parece esquecer...

    Ah, mas se ela adivinhasse,
    Se pudesse ouvir o olhar,
    E se um olhar lhe bastasse
    P'ra saber que a estão a amar!

    Mas quem sente muito, cala;
    Quem quer dizer quanto sente
    Fica sem alma nem fala,
    Fica só, inteiramente!

    Mas se isto puder contar-lhe
    O que não lhe ouso contar,
    Já não terei que falar-lhe
    Porque lhe estou a falar..."
    Fernando Pessoa


    E porque a poesia não pode quedar-se em mancha de tinta.
    Há que voltar a juntar as sílabas, embrulhar recordações e partir para o futuro sempre no Agora.

    Beijinhos.

    P.S. Deixo o meu contributo para o livro que se esvaiu.

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  3. Fiquei fã. Vou seguir.
    Boa semana.
    Beijo.
    Nita

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  4. José Carlos, gosto quando o poeta naufraga dentro de si mesmo...
    Querido amigo, um grande abraço!!!

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  5. Necessário ler Fernando Pessoa! sempre!
    E ler voce é um prazer também especial!
    meu abraço

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