sexta-feira, 19 de setembro de 2014

O terno de terra


foto: Parque Lage - RJ (arquivo pessoal)


Permanecem outras palavras no ar:

órfão das chuvas
e das iniquidades

me abrigo das intempéries
sob uma marquise
calcinada

febril atravesso
a infância sem biografia

apagando dos olhos e da memória
a túnica da escassez e da falta;

assedio os escombros das nuvens
e das lembranças dos meus mortos,

pois hei
de reconstruir o muito
que deixei na penumbra do alheio
e do espanto de última hora,

e me afasto dos desvãos dos tomos
e das infrações que, desgarrados,
corroem outros viventes.

(José Carlos Sant Anna) 

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10 comentários:

  1. Querido José Carlos, não somos esse corpo que vai se tornar adubo nas adjacências dessa última morada. Nossa essência espiritual seguirá sua trajetória, carregando, cada qual, a sua pesada bagagem milenar...
    Gostei do poema, esse terno de areia é bem legal.
    Beijo para o Tão!
    Beijo para você!

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  2. 'sem tirar nem pôr...' o que sabemos de mais definitivo não é?
    rs
    narrativa perfeita Jcarlos ,
    que saibamos vestir na hora chegada.
    um abraço forte

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  3. Ali se acaba tudo para este mundo. Para quem tem fé, a morte é apenas a partida para uma nova vida.
    Um abraço

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  4. A efemeridade de se ser, da vida que corre mais depressa que o nosso pensamento.

    Poderá ser deserto, não sem antes ser floresta luxuriante, mar revolto de marés cadenciadas,incessantes.

    valem os sonhos, os incensos cujos perfumes adiam outros odores e escondem outras vidas que nunca se conhecerão.

    A tristeza do que ficou por fazer, dos medos que não deixaram dizer, fazer...

    No entanto, estarás sempre em sintonia com a existência pois as palavras são-te cordão umbilical.

    Beijinhos agrupadores.

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  5. Passei por aqui, queria bater um papinho com o Tão, mas, não o encontrei.
    Beijo pra você, José Carlos, bom fim de semana com muita paz e amor!

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  6. A etapa terrena é curta, encerrada a mesma...a eternidade.
    Fantástico esse poema!
    Beijos, amigo!

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  7. Te deixando um abraço e criando atmosfera que te permita oferecer-nos mais e mais poesia , em versos e prosa.
    Já tens tudo aí pertinho,Tens Salvador_ a generosa visão do mar, as ladeiras do pelourinho, os sons dos tambores ,catedrais à vontade para exercer a fé e amor muito amor.
    Te espero
    Bom domingo e vote direitinho .
    O abraço

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  8. Há alguns anos, passei por uma cidade que o cemitério
    era tão lindo! que achei que era um condomínio kkk.
    Até hoje quando me lembro começo a rir e o pior que os que estavam
    lá comigo na situação nunca esqueceram a gafie kkk.
    Bela imagem e poema.
    Adorei conhecer.
    janicce.

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  9. Obrigada pelo teu carinho deixado lá no matagal, querido amigo!
    Uma semana bem gostosinha para ti.Bjsss

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  10. Por muito que a certeza da morte seja irrevogável, será na certeza da diferença da existência que morará o valor de cada um.
    Nunca mais o universo será o mesmo bem como todo o cosmos.
    Somos e seremos sempre parte do todo com a nossa cicatriz no rosto do céu pois é-se único.

    Falas em abrigo por onde não te quero protegido.
    Prefiro saber-te a ser fustigado nos ventos do norte, pelas chuvas impiedosas, gelado atá aos ossos, mas aqui e agora.

    Beijo

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