quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Da ausência




pressentida, a ausência
esgarça a argila
nela aprendemos a ouvir
o silêncio das estrelas

e sem que as léguas
sejam um obstáculo
a separar os nossos pés
do espanto do desenlace

e antes que a aurora
anuncie
pelas frestas do postigo
da casa o hálito antigo 
do sol

desvisto a fome 
do ocaso dos nossos corpos
afogado à mesa

inspirando o ar rarefeito
das antigas lembranças. 

(José Carlos Sant Anna)


domingo, 9 de agosto de 2015

Diário



Depois de extrair um anacoluto da rocha 
deixei-o rolar 
como a um seixo pela encosta

e, distraído,
como se falasse ao telefone,
fiz,

por não encontrar o papel  
que nos governa em torno de palavras
inúteis, 

um cálculo aritmético 
sobre a argila de como a rosa se desfaz.

(José Carlos Sant Anna)




terça-feira, 21 de julho de 2015

As palavras

me lanço 
na escrita farejando
o que me escapa por entre os dedos

decolagens bruscas 
                          sem medo de pane
para esquecer as vicissitudes

mas as palavras usufruem as férias
da previdência social 

me lanço 
ao covil das lobas

ouço em recado lacônico
que não querem ser incomodadas
nas praias desertas
onde exibem celulites e linhas curvas 

abro outra garrafa de proseco
e vejo-as em frente,
                            indiferentes,
em clima 
de inesperada magia,
sem ninguém para derrubá-las 
de quatro,

assim arranhando paredes 
invisíveis,
vão tecendo suas vidas

aranhas ávidas,
mulheres, ah, mulheres, 
sem pânico à flor da pele,  
excomungando

a cozinha e outros clichês
que o vento não levou

quanto a mim, 
sem perder o fôlego, me aferro
ao desenho desse raro dialeto
soletrando essa canção de delírio. 

(José Carlos Sant Anna)


quarta-feira, 1 de julho de 2015

Adágio



Pensei escrever um adágio
em que o mote fosse um vaso,

mas um peixe
atravessa o meu caminho
enquanto desço um rio
em sentido contrário,
sabendo
que o sou o seu avesso. 

Todas as coisas fazem sentido,
pois nada quer ser mais
porque já é tudo,
é o que descubro
descendo o rio

E se descobrimos
que os peixes flutuam
voluptuosamente
é porque olhamos para água,

se não o fizéssemos,
não os descobriríamos
em sua morada. 

Enquanto escrevia este adágio,
olhava no vaivém das folhas
e na correnteza do rio
o espelho do teu sono.


José Carlos Sant Anna

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Seara



Depois do rumor de nuvens
desfeitas
uma floração de palavras
um tic-tac de afetos
vibra no ar sem pecúlio
iluminando o rosto do menino

é algo que se desvela
entre o céu e a terra
como se não houvesse outro destino

são as núpcias da chuva
dedilhadas pelos missais do exílio

enquanto as mãos 
esculpem este relicário.

José Carlos Sant Anna


sábado, 28 de fevereiro de 2015

Crepúsculo


atravesso o oceano...  
olhos fechados. ouso dizer-te.
sem tocar-lhe a carne. ouso dizer-te
o animal que eu sou, o corpo em fogo
sem que me importe se estás perto
sem que me importe se o rumo é certo
sem saber se este mar 
dessalga meu corpo
sem saber se as tuas curvas
se assemelham às do mar
se no teu horizonte há temporal,
se na tua solidão há sempre sal
sem saber se me enredo na tua rede
se me perco na tua linha,
no teu anzol,
sem saber se  o frio na medula
é um acorde em sol
sem saber se tu te entranhaste em mim
zarpo e antes de passar a barra
me apascento 
como um peixe fora d'água 

(José Carlos Sant Anna)

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