terça-feira, 21 de julho de 2015

As palavras

me lanço 
na escrita farejando
o que me escapa por entre os dedos

decolagens bruscas 
                          sem medo de pane
para esquecer as vicissitudes

mas as palavras usufruem as férias
da previdência social 

me lanço 
ao covil das lobas

ouço em recado lacônico
que não querem ser incomodadas
nas praias desertas
onde exibem celulites e linhas curvas 

abro outra garrafa de proseco
e vejo-as em frente,
                            indiferentes,
em clima 
de inesperada magia,
sem ninguém para derrubá-las 
de quatro,

assim arranhando paredes 
invisíveis,
vão tecendo suas vidas

aranhas ávidas,
mulheres, ah, mulheres, 
sem pânico à flor da pele,  
excomungando

a cozinha e outros clichês
que o vento não levou

quanto a mim, 
sem perder o fôlego, me aferro
ao desenho desse raro dialeto
soletrando essa canção de delírio. 

(José Carlos Sant Anna)


quarta-feira, 1 de julho de 2015

Adágio



Pensei escrever um adágio
em que o mote fosse um vaso,

mas um peixe
atravessa o meu caminho
enquanto desço um rio
em sentido contrário,
sabendo
que o sou o seu avesso. 

Todas as coisas fazem sentido,
pois nada quer ser mais
porque já é tudo,
é o que descubro
descendo o rio

E se descobrimos
que os peixes flutuam
voluptuosamente
é porque olhamos para água,

se não o fizéssemos,
não os descobriríamos
em sua morada. 

Enquanto escrevia este adágio,
olhava no vaivém das folhas
e na correnteza do rio
o espelho do teu sono.


José Carlos Sant Anna